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Resenha | Amigo Imaginário de Stephen Chbosky


Amigo Imaginário é uma fábula religiosa disfarçada como livro de terror que se preocupa mais em disseminar sermões moralistas que em causar medo no leitor. E isso não é exatamente seu problema, existe muita ficção cristã de terror e suspense boa por aí, a questão é que Stephen Chbosky não deixa seu posicionamento explícito no texto e utiliza seu sistema de crenças para abordar assuntos complexos e sensíveis de forma rasa e enviesada. Na tentativa de escrever um épico imaginativo que explora o eterno conflito entre o bem o mal, ele cria uma metáfora bizarra para céu e inferno onde os personagens são julgados a partir de uma perspectiva perturbadora de culpa religiosa.

A trama reflete essa abordagem de um modo bem desconfortável, o suspense é tecido a partir de uma noção errônea de culpa que não surte efeito em incutir medo e que sempre acaba colocando as vítimas como erradas. Questões como violência doméstica, violência contra a mulher e aborto são discutidas de forma distorcida e sem nenhuma conexão com a realidade. Um exemplo é o arco totalmente desnecessário em que Stephen Chbosky pune cruelmente uma jovem, que está em um processo de despertar sexual e de descoberta de seu próprio corpo, simplesmente por ela praticar sexo oral em seu namorado antes do casamento. 

O seu desejo sexual é tratado como algo diabólico, uma sensação nojenta e errada que precisa ser reprimida. Essa mensagem adquire um tom tão bizarro que a moça chega a engravidar só por ter feito sexo oral e sofre a obra inteira uma vilipendiação física, moral e psicológica por não ter mantido a sua "pureza." O horror da personagem é explorado da forma mais baixa e vil possível simplesmente para condenar a ideia de sexo antes do casamento. Essa vontade de abordar cada pecado bíblico se reflete negativamente no número de páginas, a história se arrasta por mais de setecentas delas quando caberia muito bem em menos de trezentas.

A trama acompanha o pequeno Christopher, que após se perder por seis dias em meio a um bosque sombrio, se vê em meio a uma batalha de forças ancestrais que buscam insidiosamente se imiscuir no plano mortal. Forças que se utilizam dos receios, medos, traumas e desejos das pessoas para interferir na realidade e fazer sua presença ser sentida.

Como uma forma de compensar páginas e mais páginas de enrolações e explicações pseudoreligiosas pouco críveis para as motivações de seus protagonistas, Stephen Chbosky cria cenas que fazem referências a diversas obras clássicas do gênero, com Stephen King sendo o modelo mais óbvio para a maioria delas, e nesse ponto acerta ao criar algumas passagens bem arrepiantes. O problema é que a maioria dessas cenas tem pouca ou quase nenhuma importância para a trama principal. E nesses inúmeros desvios desnecessários, o mistério que era tão instigante no início, perde seu apelo, ritmo e tom e nem mesmo as diversas reviravoltas conseguem recapturar completamente nossa atenção. 

Amigo Imaginário peca por seu tom extremamente doutrinário, personagens que são lapidados em versões bidimensionais de estereótipos religiosos e discussões descontextualizadas da realidade. Mesmo se você fechar os olhos para tudo isso, o que vai encontrar é uma leitura que se arrasta por tempo demais e oferece poucas recompensas para quem se aventura em suas intermináveis páginas.

   
  Amigo Imaginário (2020) | Ficha Técnica 
   Título original: Imaginary Friend (2019)
   Autor: Stephen Chbosky
   Tradutor: José Roberto O’Shea
   Editora: Record
   Páginas: 770 páginas
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   Nota:☠☠☠☠☠☠☠(4/10 Caveiras)

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