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Resenha | Vitorianas Macabras, organização de Marcia Heloisa

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Vitorianas Macabras é uma antologia organizada por Marcia Heloisa que apresenta treze contos sombrios de escritoras da era vitoriana. O livro é bem completo, além da cuidadosa seleção que apresenta nomes desconhecidos do gênero para os leitores brasileiros e histórias arrepiantes, há vários extras que enriquecem a experiência da leitura. 

Marcia Heloisa abre o livro com dois textos essenciais para compreender o contexto em que as escritoras e suas obras estavam inseridas e como isso impactou nas diferentes discussões que seus textos se propõem, o primeiro apresentando a Era Vitoriana e a questão feminina, bem como as inspirações dessa seleção e um segundo sobre a própria Rainha Vitória e os motivos que fizeram com seu reinado definisse uma era inteira. 

Cada um dos treze contos traz em seu início uma imagem de sua autora e uma minibiografia essencial que situa o leitor com relação a época em que a obra foi produzida. No final do livro existem dois apêndices que complementam a leitura: um breve guia da sombria Londres vitoriana e seus mórbidos e curiosos costumes, como as lutas de cães e ratos, freak shows, casas de ópios, ladrões de corpos, entre outros; e uma seleção de posteres de filmes  que exploram a época, sejam em reconstituições históricas ou adaptações de obras produzidas no contexto vitoriano, formando um conjunto de indicações interessantes para quem quiser mergulhar mais nesse período. 

A Porta Sinistra de Charlotte Riddell, publicada em 1882, é uma história de fantasma que desconstrói as expectativas do leitor em um jogo de ilusão que leva a curiosidade ao limite até a última página. Em uma mansão antiga há uma porta que não fica fechada, mesmo que você a tranque, assim que tira os olhos dela, ela se abre novamente. O estranho acontecimento deu origem a lendas de que o local é assombrado. Por uma quantia em dinheiro, o jovem protagonista oferece-se para passar alguns dias na casa e desvendar a verdade por trás das manifestações. 

A história funciona bem como um mistério sobrenatural e mostra que nem sempre a aparição de um fantasma está ligada a algo maligno, muitas vezes pode ser um aviso para os vivos de um perigo iminente ou até mesmo uma exigência por justiça, para que assassinatos e ofensas cometidos ainda em vida e que jazem impunes, sejam corrigidos.

O Mistério do Elevador de Louisa Baldwin, publicado em 1895, é uma história de fantasma curta e eficaz, com uma escrita direta e sem detalhes desnecessários, define sua ambientação com verossimilhança e entrega um relato vívido, do tipo atemporal, que você poderia ouvir de um amigo nos dias de hoje e ainda se sentir arrepiado. Histórias de assombrações em lugares de trabalho são comuns e esta história oferece a síntese do que é um bom causo do gênero.

O protagonista relata o acontecimento extraordinário que o fez abandonar seu serviço, quando trabalhava no elevador de um hotel. Era um trabalho fácil, que não exigia muito e que pagava suficientemente bem. A repetição diária dos afazeres fez com que ele conhecesse hábitos, horários e os próprios moradores, de modo que a rotina não tinha muitas surpresas. Isto é, até a noite em questão, quando um homem entra no elevador no segundo andar em um horário completamente fora do comum. Mesmo intrigado com essa mudança, o protagonista faz seu trabalho e despede-se dele no térreo... Minutos depois uma verdade horrível é revelada.

Mortos em Mármore de Edith Nesbit, publicado em 1887, é um conto seminal cujas raízes narrativas podem ser vistas em dezenas de histórias de horror modernas. Sua construção é bastante eficiente em sugerir o horror, sem nunca confrontar o leitor com uma imagem direta, sempre utilizando  em seus cenários elementos que advém deste horror, construindo assim um clima sombrio bastante arrepiante, um suspense que advém do conhecimento de que algo está acontecendo nas entrelinhas e que não há como deter essas forças sobrenaturais. 

Na trama um jovem casal decide alugar uma cabana no sul da Inglaterra, fugindo da agitação da cidade e  buscando refúgio em um casa rústica de pedra, onde cada um deles pode explorar sua arte sem maiores interrupções. Eles são jovens, felizes e tudo está maravilhosamente bem, isto é, até a empregada que contrataram decidir abandonar o serviço sem maiores explicações. 

Bastante contrariado o marido a procura e indaga sobre seus motivos, suas ações são a única mácula na felicidade que o casal experimenta. Contrariada ela lhe fala sobre uma lenda local, relacionada a uma antiga igreja católica e duas estátuas funerárias de mármore de aparência assustador.  Diz que os "dois corpos colossais esculpidos em mármore" levantam de seus túmulos e retornam para sua mansão (a que eles vivem) na noite de Halloween. Ele desdenha da superstição local, mas evita contá-la para a sua esposa, que possui um espírito facilmente impressionável. O resultado disso tudo, quando o dia das bruxas chega, é catastrófico.

A Prece de Violet Hunt, publicado em 1911, é uma das grandes joias desconhecidas dessa coletânea, um suspense psicológico desconfortável que usa o horror e o sobrenatural para explorar os limites das emoções das humanas. A trama se inicia em meio ao mais puro desespero de uma esposa que acaba de perder seu marido, enfrentando uma explosão de sentimentos com todas as forças de seu ser, ela faz uma oração e acaba trazendo seu marido de volta dos mortos. Mas esta não é uma história de amor, é um conto perturbador sobre zumbis, não a figura moderna e putrefata inspirada por Romero, mas algo muito mais assustador. 

O marido aparenta ser normal, mas há algo nele, inexplicável, que repele as pessoas e causa uma sensação ruim, uma espécie de desconforto que ataca os personagens da história. Todos podem evitar essa figura estranha e as sensações desconfortáveis que transparece, menos sua esposa, obrigada a encará-lo na intimidade do lar. É uma metáfora poderosa e perturbadora sobre o casamento problemático na era vitoriana e o papel da mulher diante desses problemas.

O Coche Fantasma de Amelia B. Edwards é uma história de fantasma gótica publicada em 1864. A trama possui o estilo característico de narração da época, no qual o protagonista relata eventos traumáticos acontecidos há décadas atrás, contestados à luz da razão, sempre ratificando o caráter verídico do relato em contraposição com o arrepio gelado advindo de um flerte com o sobrenatural na escrita. 

Após enfrentar um dia de caça, o protagonista fica perdido em meio a escuridão fria da noite de um pântano inglês, vagando sem direção e com a esperança fenecendo como uma chama sem oxigênio, ele acaba encontrando ajuda na figura de um cocheiro que o leva para uma mansão. Na casa isolada em meio aquela escuridão, encontra uma boa refeição e um debate caloroso sobre ciência e filosofia com o anfitrião. Preocupado com sua esposa o protagonista não poderá passar a noite no local, durante a conversa descobre que uma diligência postal passará próximo onde está em breve, pedindo licença, consegue que o anfitrião lhe empreste o seu cocheiro lhe mostrar a estrada certa para esperar a condução, pois a antiga foi desativada após um acidente fatal, nove anos antes. Porém a condução que ele pegará naquele local não é aquela esperada.

Há muito de reconhecível na narrativa de O Coche Fantasma, sua estrutura foi replicada em dezenas de histórias sobre aparições fantasmagóricas de veículos que sofreram grandes acidentes. O protagonista só percebe o erro de ter pego a condução errada quando é tarde demais e está cercado de passageiros fantasmas. Na região do interior onde cresci havia uma lenda sobre um ônibus fantasma, uma batida anos antes havia matado o motorista e os passageiros da primeira fileira. Segundo diziam aqueles que caminhavam à beira do asfalto à noite não deveriam subir em nenhum ônibus, pois você só saberia a verdade tarde demais e ficaria para sempre preso naquela viagem fantasmagórica.

Napoleão e o Espectro de Charlotte Brontë, publicado em 1833, é um fragmento de outra história, algo não especificado neste livro. Faz parte de um manuscrito chamado The Green Dwarf escrito ainda na adolescência de Brontë, que tinha na época 17 anos, no qual um personagem francês narra o encontro de Napoleão com uma figura fantasmagórica. Segundo algumas fontes essa história foi apresentada como um conto separado pela primeira vez em uma edição dos contos da autora organizada por Clement Shorter em 1919. A história tem um tom satírico e sozinha não funciona muito bem, talvez no contexto original dentro do outro texto faça mais sentido, partindo do pressuposto que o personagem tinha uma motivação para narrar tal aventura na trama.

O Conto da Velha Ama de Elizabeth Gaskell, publicado em 1852, é a síntese de uma clássica história gótica vitoriana, repleta de elementos fantasmagóricos, uma mansão sombria em ruínas, uma família decadente com um passado cruel, maldições e órfãos. A construção da história é fantástica, com um início um pouco lento, a trama gradualmente aumenta graus de tensão com a inserção de elementos assustadores, seja uma visão pelo canto do olho de alguém onde supostamente  ninguém deveria estar ou de uma música misteriosa que surge de um órgão à noite, são várias as indicações de que algo não está certo nesta história. 

A Sombra da Morte de Mary Elizabeth Braddon, publicado em 1879, é mais uma história que utiliza a metáfora do sobrenatural para explorar as formas como as mulheres existiam em espaços domésticos na era vitoriana, suas rotinas, restrições e relações com personagens masculinos nesse contexto social, personificados aqui como figuras da nobreza e classe média. Na trama uma jovem começa a trabalhar em uma mansão  sem saber de seu histórico assombrado, motivada pela necessidade é obrigada a aceitar quaisquer condições para sobreviver, após a morte de seu pai. 

Realocada em um quarto que foi palco de um acontecimento horrível começa a ver uma sombra fantasmagórica no canto da parede e a sentir vibrações estranhas. Sem conseguir dormir direito começa a perder o viço da juventude, o horror se torna uma manifestação física, percebida pelos homens do entorno, que indagam o que está acontecendo mas acabam descartando suas alegações como um absurdo feminino. Como é de se esperar o resultado é catastrófico.

A Janela da Biblioteca de Margaret Oliphant, publicado em 1896, é um dos contos mais emblemáticos desta coleção, um suspense psicológico profundamente detalhado cuja construção da trama e desconstrução da protagonista são cirurgicamente efetivadas ao longo das páginas, para um leitor contemporâneo a leitura pode parecer lenta, principalmente pela falta de ação, mas do ponto de vista psicológico é fenomenal. Apesar da sugestão fantasmagórica da trama, a história lembra bastante O papel de parede amarelo de Charlotte Perkins Gilman, com a diferença de que esta narrativa aborda o estado psicológico de uma jovem passando por uma espécie de colapso mental, agravada por um ambiente de repressão sexual e a inexistência de um círculo social de sua idade.

A Verdade, Somente a Verdade, Nada mais que a Verdade de Rhoda Broughton, publicado em 1868, é uma história de fantasma registrada a partir da correspondência de duas amigas. A primeira necessita de ajuda para encontrar uma casa em Londres, um local que seja aconchegante, de boa localização e com um preço acessível. A casa que é encontrada pela segunda, oferece todos esses elementos, porém com um adicional, é assombrada.

O interessante acerca deste conto é que ele é baseado em "eventos reais", ou melhor dizendo, nas lendas de assombração da casa número 50 da Berkeley Square, uma construção do século XVIII que abriga arrepiantes histórias sobre uma "coisa" disforme e sem nome que assombra o sótão, sua existência cria um ambiente sobrenaturalmente fatal para a mente humana e supostamente já levou dezenas de pessoas à loucura e a mortes horríveis.

A Maldição da Morta de H. D. Everett, publicado em 1920, é uma história de assombração diferente, na qual um marido é amaldiçoado pela esposa, que encontra uma forma bastante sinistra de garantir que ele viva os restos dos seus dias como ela quer. Curto e eficiente em sua proposta.

Amor Dure de Vernon Lee, publicado em 1887, é talvez a narrativa mais irregular da coleção e a única que não conseguiu capturar a minha imaginação. A narração é feita na forma de diário pelo protagonista, um pesquisador de história renascentista, que em seus seus estudos acaba desenvolvendo uma obsessão pela figura de Medea de Carpi, uma espécie de femme fatale responsável pela morte de vários homens em sua época. Ele embarca em uma jornada para buscar mais informações sobre Medea, descobrindo aos poucos os fragmentos de sua história em documentos antigos, pinturas e cartas, e encontrando posteriormente seu fantasma.

Onde o Fogo não se Apaga de May Sinclair, publicado originalmente em 1923, mostra que a estrada para o inferno já estava pavimentada com sexo, da pior maneira possível, décadas antes de Clive Barker ousar a escrever sobre isso. Na trama a protagonista é azarada com relacionamentos amorosos, seu primeiro amor morreu em um acidente, o segundo acabou escolhendo outra pessoa e o que lhe restou foi uma relação estranha e vazia com um homem casado. Esta relação porém a perseguirá por muito mais tempo que ela pode imaginar. É um conto arrepiante e surpreendentemente cinematográfico, com um final desolador que fica preso na mente muito tempo depois da leitura.

   Vitorianas Macabras | Ficha Técnica 
   Autoras: Charlotte Brontë, H.D. Everett, Rhoda Broughton et al.
   Organizadora e Tradutora: Marcia Heloisa
   Editora: Darkside
   Páginas: 384 páginas
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   Nota: ☠☠☠☠☠☠☠☠☠☠ (10/10 Caveiras)

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