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28 de agosto de 2014

Resenha: O Pássaro Pintado de Jerzy Kosinski

Sinopse:
   Em direção a seus semelhantes o pássaro lança seu voo de esperança e de morte. Em direção aos seus semelhantes, um menino lança seu amor, seu desejo de vida. Longínqua semelhança, que qualquer tinta multicolorida destrói e que os preconceitos negam.

Opinião:
   Alguns livros possuem a capacidade de envolver o leitor em sua trama tão profundamente e intimamente, que é muito fácil tomar as dores e alegrias dos protagonistas como sentimentos próprios, ultrapassando o elo existente entre o real e imaginário criando assim personagens eternos que ficam para sempre gravados na memória de aquele que os conhece. Com O Pássaro Pintado é assim, embora esteja esquecido dos leitores brasileiros, aqueles que se deparam com suas páginas jamais a esquecem, não devido à violência e tristeza presentes na história, mas sim pela sua capacidade de machucar. A leitura é uma facada no coração, que rasga a alma e consegue tocar no âmago mais fundo do ser humano, onde nascem sentimentos como o amor e a empatia, ao mesmo tempo em que nos faz questionar se é mesmo local onde o ódio e raiva são gerados. Jerzy Kosinski narra os horrores da Segunda Guerra Mundial através dos olhos inocentes de uma criança, que ao se perder de seus pais, vaga indolente por uma terra onde o pior predador é o seu semelhante, o homem, e acaba conhecendo o lado mais puro da alma assim como seu recanto mais pútrido e infecto.
  O Pássaro Pintado traz uma visão diferente do usual da Segunda Guerra Mundial construindo seus horrores através dos cenários que compõe o interior europeu, com suas cidadezinhas minúsculas e aldeias perdidas no tempo onde o misticismo é a religião de seus moradores. A calmaria da vida do campo é perturbada pela marcha de soldados atravessando as plantações e destruindo colheitas para aplacar a fome de seu grandioso exército, o sofrimento é uma palavra ínfima para os dias daqueles fatídicos anos para os aldeões, cuja percepção do horror aumenta a cada nova invasão do inimigo. Embora ninguém possa afirmar com exatidão qual é o lado correto. Os saques se tornam frequentes, requisições para o exército é como chamam, com os campos destruídos e a impossibilidade de começar um novo plantio a fome avança fazendo vítimas que se unem a grandiosa pilha de corpos daqueles que tentaram resistir aos abusos. Aos poucos os saques se estendem a posses pessoais como joias e dinheiro e aqueles que não podem aplacar a ganancia material dos soldados sofrem outros tipos de violência, as mulheres são violentadas na frente dos maridos, mães veem seus filhos serem assassinados diante de seus olhos, homens são mutilados... E diante de todo esse horror está a frágil figura de um menino.
   Moreno e de cabelos escuros a criança de destaca do aldeões, cujos cabelos loiros e olhos azuis são exemplo de sua pureza tão alardeada por seu líder. Alguns aldeões o consideram por sua aparência um ser sobrenatural, um vampiro que traz desgraças a todas as vilas por onde passa um arauto da destruição que em seus olhos carrega a peste da loucura que acomete os homens fardados. Sua mente inocente acredita no que lhe dizem e em sua opinião é um ser maligno sem esperanças de ir algum dia para o céu. Mesmo assim alguns ainda arriscam a se aproveitar de sua inocência, os traumas que sofre em seu caminho são ainda mais horríveis que a morte através da guerra, seu pequeno coração desconhece o amor e compaixão, pois tudo o que encontra é um ódio visceral contra sua existência amaldiçoada pelos deuses. Sua busca por algum sentido em sua vida é comovente, sozinho e desprezado por todos é forçado a se tornar adulto perante as adversidades, que ao invés de destruí-lo torna-o mais forte.
    Jerzy Kosinski consegue como resultado final uma grandiosa obra que mistura horror com fantasia, um romance cru e brutal que arranca lágrimas de dor e desespero do leitor. Sem maquiagens para os horrores da guerra e para a própria maldade humana, O Pássaro Pintado é chocante, uma leitura que fica entalada na garganta e desce dolorosamente devagar, cada imagem sangrenta fica marcada na memória e uma profunda reflexão sobre o ser humano é essencial para conservar a sanidade ao final da história. Um dos melhores livros que já tive o prazer de ler. Leitura obrigatória.

Minha nota: ☠☠☠☠☠☠☠☠☠☠ (10/10 Caveiras)

3 comentários :

  1. Nossa, me interessei muito pela estória, a Segunda Guerra é um dos meus assuntos preferidos. Ótima resenha, e muito obrigado por me mostrar esse livro!
    Abraços

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  2. Me deparei com esse livro quando eu tinha por volta dos 11 anos e fiquei muito impressionada - como já era de se esperar- relendo trechos e trechos. Hoje,mais de 20 anos depois,nem lembrava mais dele. Excelente livro!

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  3. Me deparei com esse livro quando eu tinha por volta dos 11 anos e fiquei muito impressionada - como já era de se esperar- relendo trechos e trechos. Hoje,mais de 20 anos depois,nem lembrava mais dele. Excelente livro!

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