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Resenha | O Jogo da Perdição de Clive Barker

 

O Jogo da Perdição é um romance de horror complexo que reflete o pensamento crítico e revolucionário dos primeiros anos de escritor de Clive Barker, onde suas experimentações entre o erotismo bizarro e os limites da carne, tão explícitos nos contos dos Livros de Sangue e nas páginas e cenas de Hellraiser, se imiscuem pelos reinos do existencialismo e da espiritualidade. Sua abordagem do horror e da condição humana parte de uma crítica às obras que exploram o mal a partir de uma condição externa, uma linha de pensamento popularizada por clássicos como A Profecia e O Exorcista nos anos setenta e reproduzida incontáveis vezes nas décadas seguintes, em detrimento ao mal como uma condição inerente à alma humana.

Na percepção externada em O Jogo da Perdição, o mal está perturbadoramente associado à natureza da dependência sexual e social humana. Se Stephen King foi o responsável por definir as bases do horror moderno, ao se apropriar das fontes clássicas e aproximá-las e ambientá-las no contexto doméstico da classe média americana, Clive Barker foi a ação subversiva que revitalizou o gênero ao usá-lo para explorar controvérsias e tabus sociais, dando protagonismo e voz à personagens que estavam não somente à margem da sociedade, mas também das histórias de terror da época. Clive Barker utiliza sua imaginação visceral e descrições vívidas para discutir questões como política e violência de gênero, homossexualidade, violência masculina contra mulheres, violência midiática, pornografia e censura. 

É por esse motivo que Stephen King ao ler seus escritos na segunda metade dos anos oitenta o definiu como o "futuro do horror". Profecia que infelizmente não se realizou, em grande parte devido à natureza criativa de Clive Barker e sua diversificação multimidiática, que ultrapassou os limites literários e encontrou formas de expressão no cinema, pintura e teatro. Depois de escrever Livros de Sangue, Hellraiser e O Jogo da Perdição, o autor usou a mesma aproximação subversiva com que abordou o gênero do horror em direção ao fantástico, reimaginando os tropos da fantasia em romances como A Trama da Maldade, The Great and Secret Show e Imajica. Todo esse contexto faz com que O Jogo da Perdição seja um livro único, diferente de tudo o que Clive Barker escreveu.

Definir a história de O Jogo da Perdição em poucas palavras é extremamente difícil, as diversas camadas e personagens que atravessam a narrativa oferecem perspectivas e aproximações diferentes à elementos do gênero. Clive Barker em entrevistas afirmou que do ponto de vista do antagonista, Mamoulian, se trata de uma história faustiana sem o Diabo, onde o homem é o Mefistófeles de si próprio. Se olharmos pela perspectiva de Anthony Breer, o Grande Engolidor de Giletes, temos uma exploração da perversidade e dos sórdidos desejos bizarros que acompanham a carne e sua decadência, o personagem é uma versão primordial de um sacerdote cenobita com ganchos e argolas enfiados em seus órgãos genitais e com os testículos cheios de agulhas. 

Nas perspectivas de Carys e Marty Strauss ronda a descoberta da própria carnalidade, tanto a partir dos prazeres sexuais como da sensação de aprisionamento do espírito na carne, as descrições de suas jornadas espirituais e oníricas e à volta a seus corpos, sentindo a carne se solidificando ao redor de sua existência, é uma aproximação oposta à que Barker oferece em Hellraiser. Se os cenobitas despojam aqueles que os invocam da carne de seu corpo ou a alteram de formas bizarras, o horror em O Jogo da Perdição advém da percepção dos limites do corpo e da impossibilidade de ultrapassá-los, desejo este que coloca em movimento a narrativa.

Em oposição a forma rápida como tece os horrores em Livros de Sangue, a escrita de Clive Barker em Jogo da Perdição é mais lenta e reflexiva, construindo camada por camada a história e seus personagens sem ter pressa, mas sem perder a fluidez. O livro é povoado de cenas viscerais e descrições vívidas de horrores que desafiam a capacidade da nossa mente em conceber tais visões. Para os fãs do gênero é uma leitura obrigatória, que conclui e complementa as discussões sobre horror corporal do ciclo de obras iniciais de Clive Barker.

   
  O Jogo da Perdição (1989) | Ficha Técnica 
   Título original: The Damnation Game (1985)
   Autor: Clive Barker
   Tradutor: Aulyde Soares Rodrigues
   Editora: Civilização Brasileira
   Páginas: 468 páginas
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   Nota:☠☠☠☠☠☠(10/10 Caveiras)

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