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Resenha | Terror na Amazônia, organização de Girotto Brito

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Terror na Amazônia é uma antologia que explora o folclore amazônico em 20 histórias de terror que revelam os horrores que se escondem por trás da imensidão da floresta, desde figuras lendárias que assombram  moradores de pequenos vilarejos, mitos indígenas que caminham pela mata desde antes da chegada dos europeus, até o resultado brutal da ganância que motiva o desmatamento e a exploração ilegal da terra nos dias atuais. Um livro indispensável para os fãs de horror nacional.

A Dona da Noite de Rafael B. Gonzaga apresenta uma visão claustrofóbica e arrepiante da lenda da Matinta Pereira. O protagonista decide ir embora de uma festa antes dela acabar e levemente embrigado prefere se aventurar a pé pelas ruas vazias e escuras da madrugada de Belém. Desde o início da empreitada uma parte de sua mente reconhece vários presságios e agouros associados a lenda, mas o ceticismo o impulsiona, durante o trajeto sua confiança é lentamente dilapidada pelo clima agoniante que sucede a horripilante aparição, e o que seria uma breve caminhada se transforma em um pesadelo.
 
Com uma escrita ágil o autor consegue inserir com excelência o sobrenatural na trama, fazendo com que a passagem do normal para o fantástico seja o mais suave possível. A construção da tensão é igualmente assertiva, o horror da trama surge pela soma de todos os elementos narrativos utilizados, como a ambientação e a estranheza que cerca ambientes familiares à luz do sobrenatural. É um ótimo exemplo de como o folclore nacional pode ser assustador.

A Maldição do Vira-Porco de C. L. Barros mostra que há muito de verdade nos causos locais que utilizam o fantástico e o medo como uma forma de advertência. A premissa é bastante comum, um jovem estudante de antropologia visita uma cidadezinha do interior para coletar histórias de lendas locais para sua pesquisa, porém ele não consegue manter um distanciamento intelectual do tema e considera todos esses relatos um "medo ignorante de gente supersticiosa". Seu desdém desaparece quando descobre que maldições ancestrais são mais reais que teorias acadêmicas. Histórias de metamorfose de seres humanos em animais são comuns no gênero, é interessante notar como lendas regionais alteram elementos básicos deste tipo de narrativa e conseguem surpreender mesmo em um território a primeira vista conhecido.

O que vem a nossa Rede de S. é um conto que mostra que no coração pulsante de vida e morte da floresta amazônica existem lendas antigas que não devem ser perturbadas. Um escritor buscando ideias para seu próximo livro decide explorar os mistérios que jazem em meio a imensidão do verde amazônico,  lendas sobre espíritos e divindades indígenas. O que descobre é que existem coisas que caminham naqueles lugares muito antes da humanidade se desenvolver e não são  nada amigáveis. 

Com uma escrita poética a  narrativa desvela ao mesmo tempo a beleza resplandecente da floresta e os perigos que jazem por trás dela. A ambientação é sufocante, a mata se transforma em um personagem onipresente, que demonstra uma completa indiferença aos seres humanos que viver em seus domínios.

Entre Lugares de Rodrigo Ortiz Vinholo utiliza o sobrenatural como metáfora para uma discussão extremamente importante sobre o desmatamento desenfreado na Amazônia, o maior problema ambiental da atualidade.  A trama é protagonizada por um piloto, um dos milhares de invasores das terras amazônicas que as destroem em busca de lucro. Seu trabalho era transportar pessoas, equipamentos e até madeira de desmatamento ilegal para dentro e fora daquele lugar. 

Tudo muda quando é atacado por um estranho grupo de indígenas, diferente de todos os povos que ele já havia visto, a partir desse acontecimento descobrirá que a guerra que acontece em meio a floresta Amazônica é mais sombria, assustadora e mortal do que imaginava. . Uma história com suaves toques de horror cósmico.

Orquídea Nativa de Rodrigo Kmiecik explora lendas e segredos que sobrevivem há séculos imersas na imensidão da floresta. O protagonista é um caçador de orquídeas que busca uma planta nativa e selvagem perto de um riacho , fonte de inúmeras lendas de assombrações, um dos vários locais sagrados para os indígenas que foram profanados pelos homens brancos e considerados amaldiçoados. Ao passar a noite próximo ao local descobrirá que os antigos lugares encantados ainda carregam surpresas além da imaginação.

Colares, 40 anos de Zinid explora uma das histórias mais emblemáticas da ufologia brasileira. Durante o ano de 1978 avistamentos de objetos voadores não identificados foram relatados na cidade de Colares no Pará. A repercussão dos casos foi tão grande que uma operação militar chegou a ser montada para investigar a situação. Esses avistamentos também estavam associados a estranhos ataques à população, um fenômeno que passou a ser conhecido popularmente como "chupa-chupa".  Hoje em dia é possível encontrar dezenas de documentos científicos e técnicos dos próprios militares sobre as desconcertantes  conclusões das estranhas circunstâncias daquela região.

Este conto é ambientado no mesmo local e se passa quarenta anos após o acontecido, funcionando assim como uma espécie de continuação ficcional para o evento. Até mesmo a palavra ficcional pode ser contestada neste caso, em sua introdução o autor revela que em meio a ficção existem algumas verdades, lançando ainda mais mistério à trama. O protagonista é um morador local que cresceu ouvindo histórias e lendas locais sobre os avistamentos, sua vida mudará quando, em um trabalho para o governo, servirá de guia em uma estranha missão que o fará  revirar a memória daqueles eventos traumáticos e questionar a sua própria  realidade. 

Jandira de Werner Borges resgata o clima dos causos de amor e traição no interior com a adição arrepiante de um elemento sobrenatural. Em uma cidade pequena dominada pela economia do cacau, o maior fazendeiro da região vive suas aventuras sem grandes preocupações morais, mesmo sendo casado apaixona-se por uma jovem, Jandira, que esconde um terrível segredo. O conto adquire um caráter surreal e visceral que é bem interessante, o clímax apresenta uma revelação assustadora e inventiva, com um agradável sabor literário aos fãs de terror.

O que o Homem não Domina de Ana Lúcia Merege desbrava uma Amazônia intacta de interferências humanas e que guarda segredos mortais, recriando uma das expedições que tinham como finalidade catalogar as plantas locais.  No Brasil Colonial um grupo de soldados e pesquisadores atravessa a mata amazônica com extrema dificuldade, deixando uma trilha de cadáveres no caminho. Sem maiores explicações os integrantes da expedição começaram a adoecer e morrer em questão de pouco tempo. Os guias indígenas avisam sobre uma estranha planta, considerada proibida, mas a ignorância humana terá efeitos mortais. Com uma ótima ambientação, o texto prende do início ao fim, esta história de horror que se passa no período colonial é uma verdadeira preciosidade.

Fado de Fabrício Ferreira resgata o clima íntimo e arrepiante do hábito de compartilhar causos de assombrações no ambiente familiar. É mais uma história que se baseia no contraponto entre o misticismo e o ceticismo, entre os moradores que que aceitam suas lendas e histórias como partes importantes de sua cultura e o personagem da cidade, que enxerga nestes relatos um tipo de crença que deve ser abolida com educação.  O causo da vez é o da feiticeira da floresta, uma figura que veste-se de farrapos e cujo corpo esquelético termina em unhas grandes e afiadas, condenada  à vagar à noite pelas matas procurando alguém para carregar sua maldição. Mais uma vez a descrença morrerá diante de uma horrível aparição.

Venho dos Tronco Velho de Auryoj se utiliza de uma construção narrativa fragmentada para apresentar uma história baseada na figura do Capelobo. O conto é montado a partir da transcrição de áudios de chamadas telefônicas, manchetes de jornais, interrogatórios policiais e exames periciais. No interior da mata corpos estão sendo encontrados despedaçados, cada massacre é pior que o outro e vários relatos fazem referência a uma criatura mitológica. As coisas pioram quando uma youtuber decide ir até o meio da floresta gravar um vídeo apresentando o mistério. O texto tem um tom crítico que em alguns momentos se perde em sua própria caricatura do personagem, isso se sobressai ao suspense e faz com que o mesmo perda grande parte de sua força.

Yvy Jarã de Vítor Lerbo é uma história de vingança contra a exploração desenfreada da natureza e ganância humana. O desmatamento sistemático e o assassinato dos rios atinge diretamente os indígenas, que vendo suas terras serem cada vez mais invadidas e destruídas, decidem enfrentar os invasores em contendas que resultam em dezenas de mortes. A trama se inicia após uma dessas batalhas pelo controle de uma mina em meio a mata, onde um índio em seus momentos finais invoca a ira de Yvy Jarã, o espírito da terra, contra seus assassinos. 

A maioria dos mineiros ficam assustados e se recusam a descer para as entranhas da terra, viver em meio a floresta afeta a crença de qualquer um, mas mesmo assim existem aqueles cuja ganância fala mais alto. O grupo que ignora uma maldição, também não dá a mínima ao parecer técnico que fala sobre a falta de segurança e precariedade das estruturas.  O resultado é uma história de terror claustrofóbica que explora os limites da humanidade em situações extremas, que exigem medidas desesperadas para sobreviver.

O Valete de Gisele Wommer recria uma versão do mito da Vitória-Régia um tanto quanto caótica, o texto falha ao manter seu suspense coeso enquanto flutua em diversas ambientações que não se completam, ao mesmo tempo que as próprias motivações da protagonista são inverossímeis. Na trama a protagonista retira a figura de um valete em uma cartomante e a interpreta como um sinal de mudança e embarca em uma viagem que a levará em direção ao coração da mata.

O Chamado dos Tambores de Luis Parente é a instigante aventura de uma expedição arqueológica em busca restos de uma civilizações mítica no interior da Amazônia. O texto é construído em formato de diário  e narra as mazelas passadas pelo grupo enquanto empreendiam sua busca, a angustia aumenta conforme os planos começam a dar errado até seu ápice chocante.

Nas Entranhas da Terra de Felipe Santiago é um relato claustrofóbico, que flerta com o horror cósmico, ambientada no interior da Ilha do Marajó. Um engenheiro civil e um geólogo levam sua sanidade aos limites na tentativa de entender os significados por trás de um antigo pedaço de vaso de cerâmica com uma estranha figura animalesca. Eles caem em uma espiral de loucura e horror conforme segredos de povos antigos vem à tona diretamente das entranhas da terra.

O Beijo da Água de João Paulo Duarte da Silva se passa em futuro distópico onde a natureza foi completamente destruída e a Amazônia virou um deserto radioativo. Na trama um grupo de coletores revira os restos de uma sociedade extinta em busca de algo de valor. Tudo o que conhecem mudará quando no fundo dos destroços uma antiga lenda ganhar vida e encantar a todos com sua voz mortal. Uma narrativa instigante sobre a sobrevivência dos mitos mesmo após as culturas que o produziram não existirem mais.

Fúria de Jonatha Victor é um relato que tem ares fábula e de metáfora com relação à própria natureza. Na trama uma avó revela para seu neto segredos há muito enterrados, fantasmas do passado que ainda assombram sua mente. Não é exatamente uma história de terror, mas é uma leitura agradável.

A Vampira Amazona de Manaus de Rafilsky Ferreira é um conto que pulsa com o coração das narrativas pulps. Na trama uma cidade é assolada por ataques similares ao que se imagina ser um vampiro, várias pessoas possuem relatos parecidos e logo a histeria e o medo reascendem a chama de uma lenda local. A história da existência de uma tribo de guerreiras amazonas que se alimentam de sangue.  O novo delegado precisa enfrentar o misticismo em busca do verdadeiro culpado, porém quando mais chafurda nas entranhas deste mistério mais começa a se questionar se as histórias realmente são apenas histórias. 

Aos Pés do Leviatã de Ana Carina Santos e Luis Felipe Vasques é um conto que explora as escolhas morais que permeiam a sociedade com relação ao meio ambiente e a assustadora indiferença da mata com relação ao ser humano. O desmatamento da Amazônia leva a frequentes conflitos entre manifestantes e capangas de empreiteiros que agem no local. A trama apresenta um desses peões e a realidade difícil que o colocou naquela posição. A falta de oportunidades e pouco acesso a educação faz com que cada trabalho seja uma dádiva e a obediência ao patrão algo sagrado. Mesmo quando sua ordem envolva execução de pessoas. Porém desta vez uma câmera irá captar suas ações no interior da mata, para impedir a divulgação das imagens uma perseguição será iniciada e em meio a confusão algo na floresta será incomodado e virá buscar reparação com sangue.

Oposição de Cacyo Nunes é uma história que desenterra os cadáveres putrefatos dos segredos sangrentos do universo da política e mesmo tempo mostra que  nossos atos sempre possuem repercussões. Na trama o protagonista começa a divagar no funeral de uma figura política, um ex-governador da Amazônia com quem trabalhou em sua juventude.  Sua memória retorna aqueles tempos cruéis onde realizava trabalhos sujos para o político garantindo eleições e votos. O que ele não sabe é que em seu horizonte está a vingança, cruel e inevitável, apenas aguardando deslize seu para cobrar a dívida de sangue com juros.

O Canto do Pirarucu de H. G. Brito explora a magia sombria das lendas antigas. Dois amigos saem em uma excursão desbravando o Rio Amazonas, uma aventura há muito desejada e há muito postergada, no caminho observam as belezas e perigos que a mata abriga. A ideia é participar de uma pesca noturna de pirarucu, e para isso aguardam o momento correto acampando no meio do mato. À meia noite quando saem para o meio do rio descobrem que as lendas às vezes são reais e muito perigosas. A narrativa tem um tom mágico e uma simplicidade na construção do sobrenatural bastante efetiva, a ambientação na floresta, quase um personagem onisciente, lembra em alguns momentos mais arrepiantes de Os Salgueiros de Algernon Blackwood. 

   Terror na Amazônia (2020) | Ficha Técnica 
   Autores: Rafael B. Gonzaga, Rodrigo Ortiz Vinholo,  Rodrigo Kmiecik et al.
   Organizador: Girotto Brito
   Editora: Pará.grafo
   Páginas: 301 páginas
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   Nota: ☠☠☠☠☠☠☠☠☠ (9/10 Caveiras)

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