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Resenha | Clive Barker's Hellraiser 2: A Prisão


Continuando com as resenhas das adaptações para histórias em quadrinhos do universo de Hellraiser de Clive Barker, chega a hora de dissecar o segundo volume das quatro edições brasileiras publicadas pela editora Abril entre os meses de abril e outubro de 1991. Originalmente a série foi publicada entre 1989 e 1992 pela Epic Comics com um total de vinte edições. Desta vez são cinco histórias que oferecem visões infernais de pessoas que tiveram seus piores pesadelos tornados realidade pelos Cenobitas. 

A Prisão, com arte de Jorge Zaffino e roteiro de Marc McLaurin, mostra o que acontece quando a Configuração do Lamento vai parar nas entranhas sombrias de uma prisão sul-americana, um pedaço do inferno na Terra comandado por um militar sádico em meio a um levante revolucionário, conhecida apenas como La Enfermidad. A história se inicia quando Garcia, um dos prisioneiros, resolve a Configuração e desaparece de sua cela em direção a um paraíso infernal cenobita. Velez, o diretor da prisão, acredita que ele escapou e que a caixa deixada em sua cela vazia tem algo a ver com isso.

La Enfermidad é um antro putrefato de torturas profanas advindas diretamente do lugar mais insano da mente de Velez, que não conseguirá descansar enquanto não souber como alguém escapou de sua prisão. Sua obsessão com a caixa e com a fuga misteriosa dá início a inúmeras tentativas de resolver os seus segredos, dezenas de prisioneiros são obrigados a testar seus limites com a Configuração. Aqueles que se negam a tocar o objeto são executados instantaneamente e mesmo aqueles que tentam e não conseguem são mortos.

Tudo muda quando um dos principais revolucionários é preso e Velez, em um ato desesperado, tenta obrigá-lo a resolver a Configuração. Com um texto que reflete a insanidade e crueldade das prisões e a paranoia militar, A Prisão, é uma adição interessante à mitologia cenobita, ilustrando como as criaturas veem aqueles que tentam invocá-las através da dor e o que espera àqueles que conseguem.

Várias Mãos, escrita por James Robert Smith e com arte de Mike Hoffman, se passa em um hospital de leprosos, onde Vincent, um dos pacientes, vive seu inferno particular: apesar de ser o proprietário de uma Configuração do Lamento, não consegue resolvê-la, pois devido a doença, não tem os dedos das mãos e nem a sensibilidade do sentido do tato, necessária  para manusear os mecanismos da caixa que invocam os cenobitas.

Sua sorte começa a mudar quando Mary, a nova enfermeira do local, se torna sua amiga e rapidamente fica obcecada por sua história. Vincent acredita que os Cenobitas podem lhe dar um novo corpo, preso em um mundo privado de sensações, seu único desejo é sentir algo novamente, seja dor ou prazer. Mary decide ajudá-lo mesmo não acreditando totalmente em seus delírios, mas logo descobre que a carne é mais maleável do jamais imaginou e no inferno cenobita, um corpo pode coexistir em formas além da imaginação. 

Várias Mãos, expande a mitologia de Lemarchand, o criador da Configuração do Lamento, e a própria mitologia das caixas, ao sugerir que os portais que levam aos cenobitas não são acessíveis apenas através de objetos, mas também de lugares. Também traz uma boa definição cenobita para o corpo, que nada mais é que um monte de carne a ser rearranjado e mutilado até a completa submissão.

Writer's Lament, escrita por Dwayne McDuffie e desenhada por Kevin O'Neill, é uma crítica ácida, fervida no óleo do humor negro, que se utiliza de metáforas para discutir e satirizar a relação entre o autor e o editor. Em especial a forma sádica como o controle editorial se traduz na mutilação do texto, definido aqui como a expressão mais pura das ideias do autor. 

Na história conhecemos um escritor que vive no Inferno, sua felicidade alcança o ápice quando termina um dos seus escritos mais brilhantes e este se manifesta na forma de um bebê. Com seu novo filho, literal e metaforicamente em seus braços, ele ruma para a sala do editor, para que o fruto de seu trabalho passe por uma apreciação. O editor então passa a mutilar o bebê/história, descrevendo exatamente o motivo para cada uma das eviscerações, começa arrancando um olho, um braço, os testículos. Uma leitura divertida e reflexiva.

O Limiar, escrita por Scott Hampton e Mark Kneece com desenhos de Hampton, faz uma exploração interessante sobre os limites da dor e da percepção humana. O que há para além do véu da agonia infinita? A Tecelagem dos Sonhos é uma empresa de realidade virtual que oferece simulações visuais e sensoriais para seus usuários com possibilidades infinitas, mas é claro que seu produto mais vendido é uma simulação de sexo com celebridades. 

Nos porões da empresa há um segredo trágico, um dos primeiros seres humanos a testar essa tecnologia está preso em uma cama ligado a uma simulação. Sua mente derreteu após um erro do simulador, ao invés de surfar nas ondas do Havaí, ele acabou surfando em lava e por um descuido dos operadores permaneceu um final de semana inteiro experimentando as sensações de ter o corpo consumido milhares de vezes por um calor infernal. 

Seu corpo sem mente se tornou uma fonte de diversão sádica para os técnicos que simulam dores inimagináveis com seus programas. Um deles está prestes a executar um comando crescente de dor, que multiplica a dor sentida por dois até alcançar o infinito. Com esse experimento ele pretende ganhar o Nobel, porém vai acabar despertando a atenção de criaturas muito mais cruéis que velhos acadêmicos, os Cenobitas, cuja premiação está além dos limites da nossa compreensão.

Os Prazeres do Logro, escrita por Philip Nutman e desenhada por Bill Koeb, fecha esse volume trazendo o próprio Pinhead e a Cenobita feminina dos primeiros filmes como personagens em uma narrativa que se perde no surrealismo de seu roteiro e arte. Um pintor vê seu vício em álcool impactar negativamente em sua arte, o que outrora era macabro e assustador, agora é apenas triste e de mau gosto. Sua ideia é procurar inspiração através da Configuração do Lamento, seu pedido é atendido e ele passa a ser testemunha das torturas e eviscerações cenobitas, mas logo descobre que não consegue controlar tais visões e passa a perceber o mundo através dos olhos da dor.

   
  Hellraiser (1991) | Ficha Técnica 
   Título original: Hellraiser (1989)
   História da capa: A Prisão
   Artistas: Kevin O'Neill, Scott Hampton, Jorge Zaffino, et al.
   Editora: Abril
   Páginas: 62 páginas
   Compre: ---
   Nota: ☠☠☠☠☠☠☠ (9/10 Caveiras)

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