Resenha | A Criatura de Andrew Pyper - Biblioteca do Terror

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Resenha | A Criatura de Andrew Pyper

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A Criatura é uma espécie de thriller gótico que mergulha nas tradições clássicas do terror para criar uma premissa que em um primeiro momento parece instigante, a existência de um ser que inspirou o monstro de Frankenstein de Shelley, o Drácula de Stoker e o Mr. Hyde de Stevenson nos três grandes romances seminais do gênero do século XIX, mas que na prática se configura em uma tarefa complexa e problemática. A ideia de uma história secreta por trás da narrativa oficial não é nova e dentro do contexto deste romance algumas coisas funcionam e outras não.

A tecitura narrativa de Pyper consegue ser crível em poucos momentos, mesmo dentro de seu próprio universo. Um destaque positivo é no desenvolvimento da relação entre Jekyll e Hyde através da perspectiva da criatura de Frankenstein, único elemento de horror efetivamente assertivo na trama. Mas a falta de verossimilhança é uma constante no texto, o que prejudica a experiência da leitura. A exemplo da construção do relacionamento entre a protagonista e o monstro ou no próprio esquecimento, necessário por parte do leitor para a premissa funcionar, de todo o folclore e literatura ao redor dos vampiros pré-Stoker em detrimento da crença de que Drácula foi responsável pela origem da mitologia vampírica.

A história de origem da Criatura e todo o seu caminho desde o século XIX até a contemporaneidade é interessante, desde a forma como trava contato com os autores da época e os inspira em suas obras-primas até suas indeléveis participações em eventos históricos, como nas guerras mundiais, raízes de seus problemas na atualidade. Andrew Pyper soube fazer uma bela homenagem a Shelley, Stoker e Stevenson, inserindo-os como personagens na trama, e ao mesmo tempo respeitar a criatividade e legado de cada um. Mas tudo isso é construído a partir de flashbacks e o grande problema jaz na linha narrativa moderna, ou na sua incoerência.

Se a história da Criatura é interessante, a forma como escolheu para contá-la não. Desnecessariamente o autor transporta a protagonista de um lugar para outro na Europa numa tentativa, cuja justificativa é verificar a autenticidade de seu relato, de emular o mesmo ritmo narrativo de seus romances anteriores. Toda a trama poderia muito bem ter sido transmitida de forma direta durante a primeira cena do livro, eliminando quase setenta e cinco por cento do romance.

Andrew Pyper trabalha sua história a partir da perspectiva particular de sua protagonista, de modo que muitos acontecimentos importantes que orbitam ao seu redor não são explicados ou aprofundados o suficiente para se tornarem críveis, como a subtrama dos homens misteriosos que a perseguem por conta de sua ligação com a Criatura, que surge a partir do nada para desaparecer em direção alguma.

A melhor sequência de cenas da obra está em sua última parte, quando o monstro finalmente consegue convencer o leitor de que é um personagem de uma história de terror, que inspirou histórias de horror, e que representa um perigo real para a narrativa. Mas quando o suspense começa a ensaiar uma evolução, a história acaba. A Criatura tem uma trama ágil que segue o modelo dos livros de Pyper, mas é pouco crível e apesar de ter alguns momentos iluminados, em grande parte é esquecível.

  A Criatura | Ficha Técnica 
   Título original: The Only Child (2017)
   Autor: Andrew Pyper
   Tradutora: Cláudia Guimarães 
   Editora: Darkside
   Páginas: 344 páginas
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   Nota: ☠☠☠☠☠☠☠☠☠☠ (6/10 Caveiras)

2 comentários:

  1. Não sei porque a Dark Side insiste apostar em um autor tão medíocre. "O Demonologista" é uma verdadeira vergonha literária. Rafael, tu já ouviste falar de um autor chamado Harlan Ellison? Esse autor é uma verdadeira lenda da ficção científica e do terror e possui uma obra vastíssima, tanto na literatura, quanto nos quadrinhos. Gostaria muito de saber qual o motivo das editoras brasileiras especializadas em literatura fantástica não terem publicado, até hoje, nada de um autor tão renomado e famoso como o Ellison ao invés de ficarem insistindo em escritores novatos e de segunda mão a exemplo de Piper. Abraços!

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  2. É, só posso concordar. Eu quis arremessar o livro pela janela.

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