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11 de julho de 2016

Dicas para você não se Decepcionar com Livros de Terror

   Não existe nenhum tipo de leitor mais crítico do que o leitor de terror, não há um meio termo no gênero, ou o livro é bom ou ele é ruim e até mesmo os clássicos são temas de grande discussão. Diferente de alguns gêneros, não existe uma fórmula de "sucesso" em livros de terror, afinal você só consegue assustar o leitor com um determinado tipo de cena uma vez, do mesmo modo que um mistério perde seu suspense depois de resolvido, o medo só vem no primeiro contato e o resto é clichê. Quem nunca foi ler aquele livro super elogiado por todos, garantia quase certa de sustos e arrepios, mas na hora H se decepcionou? Ou tem sangue demais, ou tem sangue de menos. O final é inconclusivo. Ou a narrativa é chata e os personagens não são carismáticos... Como sempre digo o medo é algo extremamente pessoal, nem sempre o que te assusta funciona comigo e vice-e-versa, mas como evitar a tão temida "broxada" literária? Minha experiência como leitor me deu algumas ferramentas para lidar com essas decepções e agora compartilho isso com vocês:


1. Preste Atenção ao Contexto da Época
   Uma dos pontos que considero mais importante nas minhas resenhas é falar sobre o contexto sob o qual aquela obra foi escrita e publicada, a literatura mais do que simples entretenimento é uma válvula de escape que permite ao autor fazer críticas à sociedade através do ficcional, dependendo da censura isso se traduz de forma velada ou explícita.  Por isso é muito importante conhecer o contexto social da época em que o livro foi escrito para compreender as reais intenções de seu escritor, algo que poucos leitores se preocupam em fazer e que acarreta, por exemplo, em uma leitura equivocada de um clássico e o consequente desgosto. Ler é mais do que juntar sílabas para formar sequências de palavras,  é interpretar  textos, mais do que absorver o que está escrito, é absorver o que o autor não escreveu e está subentendido nas entrelinhas,  esperando por aqueles que sabem do que ele está falando.
 Vou citar dois exemplos, o primeiro é o clássico Os Invasores de Corpos de Jack Finney, escrito na década de 50, é um livro que em sua primeira camada é uma estória sobre sementes alienígenas cujo poder reside na capacidade de clonar o corpo de suas vítimas com perfeição, para então concluir a invasão assumindo seu lugar na sociedade sem que ninguém consiga notar a mínima diferença. Uma premissa tão famosa que hoje em dia é o clichê mais básico das histórias do gênero e talvez por isso o leitor do século XXI  não ache sua leitura tão especial. mas vamos voltar à época em que o livro foi escrito, os fantásticos anos cinquenta, quando o mundo estava dividido entre o capitalismo americano e socialismo soviético, época esta em que os Estados Unidos conduziam uma verdadeira caça às bruxas ao simpatizantes do comunismo.    
  Jack Finney conseguiu traduzir a paranoia dessa época com perfeição em seu livro, as pessoas sentiam medo pela simples questão de que de uma hora para outra seu vizinho de anos tornou-se um desconhecido, sabe-se lá se poderia ser um espião comunista ou algo do tipo. A invasão alienígena serviu como metáfora para a invasão da histeria de um ataque de ideias comunistas à nação, as pessoas "infectadas" não sofreriam nenhuma modificação física, mas a sua mente, sua essência, quem eles realmente eram estaria irremediavelmente modificado e como resultado eram inimigos da nação. A mesma coisa pode ser dita do desconhecido O Endemoniado de Olinto J. Oliveira, um livro que fala sobre a ascensão de uma conspiração satânica ao governo do Brasil escrito na época da Ditadura. Consegue ver um paralelo entre os temas?

2. Use opiniões como incentivos, não como palavra final
 Mas como consigo saber sobre esse contexto? Vem escrito na sinopse? A maneira mais rápida é você aprender a pesquisar sobre suas leituras,  talvez o maior problema dos leitores de hoje seja a preguiça em procurar mais sobre determinados assuntos e, principalmente em redes sociais, fazer a seguinte pergunta: alguém já leu? É bom? E sempre aparecem aqueles  que elogiam e defendem o livro e aqueles que tecem críticas ácidas.  E de certo modo os dois lados estão certos, cada um tem sua opinião certo? Esse foi um dos motivos do nascimento da Biblioteca do Terror, a maioria dos sites que visitava para buscar informações sobre o meu gênero favorito, não possuíam uma opinião aprofundada sobre o mesmo. O problema começava com a falta de observação do primeiro tópico, contextualização.
  Mas é nesse momento que entra a segunda dica: jamais tome a opinião de terceiros como palavra final. Se você realmente quer ter certeza de alguma coisa, vá atrás e experimente por si mesmo. Digo isso porque hoje em dia vejo pessoas que idolatram produtores de conteúdo e tomam suas palavras como uma verdade bíblica. Não é difícil você ter uma conversa em que cita um filme ou um livro, e pessoa te responde que não quer ver ou ler porque determinada pessoa ou site o fez e não gostou. Será que só porque sua tia fitness odeia pizza você jamais vai experimentar uma,só porque ela não gosta? Ou clássica reprovação dos pais e sacerdotes sobre sexo antes do casamento te impedirá em algo? Se sim parabéns. 
  Não sou o dono da verdade, o blog é reflexo do meu gosto pessoal, e dou uma grande ênfase nesse "pessoal",  o que você sempre vai encontrar aqui é a minha opinião. Agora eu quero que você a use como uma chave que vai te levar a encontrar aquele livro antigo ou leitura diferente que procura e não como uma fechadura que vai fazer você se afastar de determinado livro para sempre. É um ditado popular que opinião é igual a bunda, todo mundo tem, mas será mesmo? Acho que aquela metáfora dos tropeiros e dos bois se encaixa de modo fantástico aqui. Os antigos tropeiros atravessavam quase que todo o sul do Brasil conduzindo manadas de milhares de bois para vender no sudeste, mas curiosamente o número de homens precisos para este tarefa era bem reduzido.  Era preciso apenas controlar os animais que estavam na frente e nas laterais, assegurada a direção em que esses iam, a grande massa os seguia. Talvez esse animais que estivessem no meio imaginassem que estavam sendo controlados, pensavam que estavam livres correndo com seus amigos. Só percebiam o erro no momento em que a estrada se afunilava em direção ao abatedouro.

3. Não confunda "gosto" com "qualidade"
   Para os leitores a maior revolução que a internet proporcionou foi quebra o círculo dos formadores de opinião, os especialistas que antigamente ficavam em em jornais, televisão e rádio, agora competem com cada leitor que é um "especialista" em potencial. Nas redes sociais todo mundo é crítico e tem uma opinião formada sobre qualquer assunto, porém um erro que sempre persegue a literatura de terror é ter a sua opinião baseada simplesmente no gosto pessoal, não entenda errado, isso é muito importante, mas não é tudo. É nesse aspecto que entra a questão do pré-conceito: não lerei este livro porque fala sobre o diabo e minha religião não permite, ou como você pode gostar de ler um livro sobre serial killers e seus assassinatos? E logo após isso o autor da frase se posta diante da televisão para consumir sua dose diária de acidentes e violência nos  telejornais da televisão. Se você é uma daquelas pessoas que acha que só aquilo que você gosta é bom, só a música que você escuta é legal, só a sua literatura é cultura. Bom, tenho más notícias: até onde sei o centro do nosso sistema é um astro chamado sol e não [insira seu nome aqui, obrigado].

4. Não espere sentir medo com qualquer coisa
   Essa é difícil: o que define um livro de terror? Sua capacidade de assustar? De tirar o leitor de sua zona de conforto e transportá-lo para o inferno? Podemos dizer que o horror é muito mais sobre uma tragédia, do que o medo propriamente dito, e sobre a capacidade daquele personagem de superar aquela adversidade ou não. Nem toda história de terror é um poço de sangue, membros decepados, tripas cheias de vermes, zumbis e vampiros sanguinários. Nós temos medo, por exemplo, de caminhar em uma trilha escura à noite, ou de não encontrar uma pessoa para passar o resto da vida ao nosso lado, ou ainda algo mais pessoal e incompreensível como o medo de altura ou lugares pequenos. 
   É difícil definir onde nasce o medo e que tipo de gatilho vai conseguir ativar essa sensação em seu íntimo. Se o horror está na tragédia, muitas vezes ela se inicia com uma escolha errada ou em um erro baseado numa falha de caráter.  Um exemplo clássico é o do protagonista que vai investigar um som estranho à noite, para o leitor que sabe que esta é uma estória de terror essa é uma escolha péssima, mas para aquela pessoa, aquela é a sua vida, ela não tem a mínima noção de que está em um livro. E quem pode garantir que todos nós não estamos em um livro de terror? Que eu não passo do fruto da sua imaginação e que na verdade você está apodrecendo numa cela em um asilo e que Stephen King e Lovecraft na verdade são os nomes dos médicos que tentam lhe curar?
  Enfim cada livro é uma leitura diferente para cada pessoa. Para um católico, o demônio descrito em O Exorcista é uma das fontes de medo mais profundas do seu íntimo, para um pai que sofre do vício da bebida, O Iluminado é a tradução dos seus piores pesadelos, assim como que para quem tem medo de palhaços Pennywise é o mal encarnado. Como também pode ser o contrário, para um masoquista experiente Hellraiser é uma  simples crônica  diária, no mínimo interessante.  Um livro de terror é como uma peça de roupa, não adianta você pegar o primeiro que aparecer na sua frente e esperar que ele sirva para você. Há casos em que isso provavelmente acontecerá, mas antes de tudo, é importante  saber o seu "tamanho."

5. Expectativa
  Eis a ferida que jamais cicatriza no leitor constante: a expectativa. É difícil você não criar expectativa quando o lançamento em questão é do seu autor favorito. É difícil você não criar expectativa quando no seu círculo de amizades aquele filme ou livro é o assunto principal. É difícil você não criar expectativa quando a editora faz uma campanha de marketing tão agressiva que até no seu sonho aparece um banner do livro. Diferente do que alguns leitores comentam, eu não consigo ter expectativa baixa sobre determinada obra, se um livro me chama a atenção a primeira coisa que penso é que a leitura será ótima e que preciso por minhas mãos naquela belezura. Essa linha de pensamento me levou a encontrar livros fantásticos, como o próprio Iluminado de Stephen King, Asteca de Gary Jennings, Xógum de James Clavell, A Profecia de David Seltzer e A Sentinela de Jeffery Konvitz. Mas também já me fez chorar de decepção com livros como Semente do Diabo de Dean Koontz, O Devorador de Lorenza Ghinelli e recentemente Loney de Andrew Michael Hurley. 
  Talvez minha pior decepção tenha acontecido com As Amorosas de Kathleen Winsor, hoje eu reconheço que deveria ter sacado na hora por causa do nome, mas a sinopse falava sobre uma Jornada Diabólica empreendida por uma jovem no Inferno, como uma estória assim não seria legal? Mas adivinhem que jornada era essa? Na época eu não conhecia o conceito de romance de banca, mas a tal jornada diabólica envolvia em sua grande parte sexo com Lúcifer e o drama de descobrir que o demônio também era amante de sua mãe. Tá de brincadeira comigo não é? O problema é que este livro foi publicado pela Nova Cultural com o mesmo selo que obras como A Última Vítima de Dan Barton, um dos primeiros suspenses que li. 
   E o que essa experiência me ensinou? Nada! Pouco tempo depois comprei Dança Macabra de Stephen King achando que estava adquirindo o clássico Dança da Morte. Mas essa foi uma decepção passageira, o livro logo se tornou minha bíblia do terror e guia pelas estantes empoeiradas das bibliotecas que visitava. Mas então como evitar se decepcionar por causa de uma grande expectativa? Talvez não seja possível, mas se você tiver em mente os itens anteriores talvez consiga reduzir os efeitos nocivos dessa decepção e aproveitar sua leitura. Afinal o que realmente importa dentro disso tudo é a diversão.

8 comentários :

  1. olá, adorei o post. Como eu disse em uma resenha do André Vianco que fiz em meu blog, acho o terror um gênero meio incompreendido no brasil, temos autores bons, mas tem que se trabalhar esse gosto no brasileiro!
    Beijos, Jana!

    Blog Eu Li nas EntreLinhas

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  2. na sua postagem de Loney, fiz um comentário que iria ler a obra pois a experiência pessoal é insubstituível... sua resenha e crítica é como um Norte para os viajantes literários, mas nem todos seguem para o Norte, não é mesmo ;P

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  3. Parabéns Rafa, mais um excelente post. Concordo imensamente com tudo que você escreveu, principalmente sobre a opinião pessoal nunca ser levada como a opinião geral de uma obra, por exemplo: lí sua resenha e opinião sobre o Loney, confesso que fiquei com o pé atras sobre ler esse livro, mas certamente vou ler, pois estou bem curioso sobre, sua opinião é de extrema valia para mim, porém vou ler o Loney mesmo assim. Assim, como falaram muito bem de O Demonologista e eu não gostei muito...
    Sobre seu primeiro tópico: realmente acredito que as pessoas geralmente não levam muito em consideração, porém o contexto da época e a década a qual a obra foi escrita é uma parte muito importante da leitura, lí A volta do parafuso mês passado, confesso que de início fiquei com um pé atras, mas lembrando que se tratava de uma história de fantasma de 1898, a leitura ficou muito prazerosa.
    Novamente, parabéns pelo texto.

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  4. Em relação ao 1º tópico sobre o contexto da época, li Drácula e não gostei tanto quanto de Sálem, do King; mas ao analisar o contexto da época em que foi escrito Drácula, imagino o grande sucesso que foi, o transformando em um clássico reconhecido até hoje e provavelmente daqui a séculos.

    Em relação ao 4º tópico, eu não costumo ter medo em livros, algumas vezes quando tenho um certo arrepio já fico muito satisfeito, talvez se eu lesse livros de terror no começo da minha adolescencia eu teria aproveitado muito mais essa de "sentir medo". Mas aí por que leio livros de terror ? O maior motivo pra mim é pela qualidade da obra, dando como exemplo It do King, que em minha opinião é o melhor livro do gênero que li até agora, mesmo não gostando da batalha final contra a Coisa e não me dando medo algum, mas por outro lado, o King desenvolveu tão bem os personagens nas mais de 1000 páginas, suas maneiras típicas de falar, os laços de amizade entre eles na infância, a maneira que o encontro com a Coisa na adolescencia influenciou a vida adulta dos protagonistas, sem contar o quanto realistas e convincentes estes personagens são !

    Quanto ao 5º tópico, você não foi o único, Rafa, que se decepcionou com Semente do Diabo do Dean Kooontz rsrsrsrs. Eu achei que iria gostar mais de Eu Sou a Lenda, e de O Cemitério, mas por outro lado, a boa surpresa que tive ao término de Novembro de 63, que eu não estava tão interessado assim, e hoje é meu livro preferido dentre todos os gêneros, foi simplesmente surreal. Acho que vale o risco (um risco inevitável na verdade) de as vezes a leitura não corresponder a expectativa, pois tem a probabilidade de se surpreender positivamente com a leitura, que como disse acima, é fantástico !

    Excelente matéria por sinal !

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  5. Pra mim, os livros mais assustadores são os que abordam o terror psicológico, pois costumam retratar situações que podem acontecer a qualquer um de nós, em qualquer momento da vida. Já nas histórias que envolvem vampiros, zumbis e etc., o que mais me chama a atenção é o modo como os seres humanos reagem à ameaça, como se organizam ou lutam uns contra os outros, como colocam em xeque as próprias convicções e às vezes são forçados a passar por cima de antigos valores morais, como acontece em "Eu sou a lenda", por exemplo. Gostei muito do post, principalmente quando você fala que ler é muito mais que juntar sílabas e palavras. Todo bom escritor sempre deixará idéias e revelações enterradas nas entrelinhas e cabe ao leitor trazer à tona essas coisas que, geralmente, são mais valiosas que os eventos narrados às claras, em primeiro plano. E pra concluir: essa provocação de que podemos ser os loucos confinados num sanatório e que King e Lovecraft talvez sejam nossos médicos, me lembrou o clássico "O gabinete do Doutor Caligari"...

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  6. Olá

    talvez seja a primeira vez que eu comente aqui (mesmo já acompanhando os textos do site há bastante tempo), senti necessidade de dizer que adorei o texto do começo ao fim. Gosto bastante da literatura de horror, embora tenha lido poucos títulos até hoje. Enfim, parabéns pelo site e pelo texto incrível, já estou compartilhando com os amiguinhos haha!!

    Abração!

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  7. Adorei seu post! Principalmente quando você diz sobre gosto e qualidade.
    Parabéns, tudo que você escreve é muito bom!! Abraços!

    www.lendo1bomlivro.com.br

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  8. Ótimo post! A questão do contexto me lembra um comentário que você deixou no meu blog sobre o Contos Clássicos de Vampiros. O contexto é importantíssimo!
    Compartilhei o post na página do blog.

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