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Resenha | Morto Não Fala E Outros Segredos de Necrotério de Marco de Castro



Morto não fala e outros segredos de necrotério é uma coletânea que explora os horrores urbanos e suas manifestações na psique humana. Marco de Castro utiliza sua experiência como repórter policial para tecer narrativas viscerais que representam o ambiente da cidade como um lugar de medo, mesclando elementos da realidade brutal e violenta, exposta todos os dias nas manchetes de jornais, com o sobrenatural e o insólito, para discutir problemas relacionados à identidade, discriminação, desigualdade econômica e as questões sociais, culturais e políticas que reproduzem e perpetuam esses contextos.

O horror das histórias de Marco de Castro advém de uma escrita ágil, enxuta e brutal que não poupa detalhes para descrever os resultados da violência policial e doméstica, de relações abusivas, traumas emocionais, obsessão e paranoia. Seus temas estão profundamente enraizados nas ansiedades sociais contemporâneas, com o toque de sobrenatural servindo apenas para destacar que a origem de todos esses pesadelos provém de fontes puramente humanas. No entanto suas tramas tangenciam nostalgicamente por aspectos oitentistas do gênero, contrabalanceando o terror com doses de humor, manipulando as emoções do leitor para que ele não se sinta anestesiado pelas altas doses de violência. A organização dos contos é efetiva nesse aspecto, intercalando narrativas brutais com histórias mais leves e de tons humorísticos, mas que mesmo assim, não deixam de ser inquietantes.

"Estudo de Anatomia" é a espinha dorsal da coletânea, dividida ao longo de quatro interlúdios, serve como elemento de ligação entre as histórias. Essas passagens são compostas pelos diálogos entre Jucélia, uma estudante negra de medicina, e Val, o cadáver no qual ela precisa praticar necropsia. Cada conto é uma história relatada pelo defunto, sendo a primeira metade do livro composta de contos mais curtos e a segunda por histórias mais longas e desenvolvidas. 

"Morto não Fala": Josué trabalhava em um necrotério e para não enlouquecer com o silêncio tedioso dos plantões de madrugada começou a falar com os mortos, até que um dia os cadáveres começaram a responder. O conto é cirúrgico ao dissecar a violência urbana, dando voz à personagens que estão à margem da sociedade e que muitas vezes são apenas uma nota anônima no rodapé do jornal, mostrando qual é o perfil social que mais sofre com essa violência. A história avança quando o cadáver de um conhecido de Josué chega ao necrotério e no meio da conversa revela um segredo que se torna fermento para uma vingança sangrenta e brutal.

"Buraco": Seu Lupércio acorda com o tranco do carro passando por cima de um buraco no asfalto, ele está preso no porta malas de um carro e em meio a escuridão começa a se recordar de como foi parar lá. Um conto rápido e ágil, carregado de um humor sombrio, que termina em uma arrepiante gargalhada desconfortável. Sua história mostra que para manter as aparências os crimes mais horríveis são cometidos, tudo em prol do entretenimento da família brasileira. 
 
"Um bom policial": Jailson é um policial novato que está vivendo um dos seus piores pesadelos, a situação em que é preciso matar ou morrer. Em uma viela escura ele está perseguindo o suspeito de um assalto, com o coração aos pulos atira no primeiro vulto que aparece em sua frente. Ao invés do assaltante, o corpo que jaz sangrando no chão é o de um jovem estudante negro. Com essa premissa brutal, pesada e realista, o conto discute com propriedade as raízes da violência contra inocentes no Brasil, discutindo as noções de culpa a partir do viés social e religioso, utilizando o sobrenatural como manifestação física desse sentimento. Em uma sociedade em que a violência policial contra uma parcela específica da população está se tornando norma, o que significa ser um bom policial? 

"Lual dos Mortos": um grupo de adolescentes desaparece no verão de 1994 após se encontrar no cemitério do bairro. Um conto curto, eficiente e visceral que resgata o clima das lendas urbanas ao redor de cemitérios e o motivo de todas terem como moral não incomodar os mortos em seu descanso eterno. 

"Gol do Corinthians": Rafael é um jovem torcedor apaixonado pelo Corinthians, o problema é que seu pai, violento e abusivo, é palmeirense e não tolera que seu filho torça para o time rival. Um conto sombrio e pesado que discute a violência doméstica e fanatismo, um tour de force em um seio familiar distorcido com um final redentor. 

"Noite de Domingo": Valberto em sua busca por diversão noturna atravessa um centro de São Paulo cheio de contrastes urbanos, as mesmas ruas em que estão localizadas boates chiques são cheias de pessoas desabrigadas. Em uma dessas boates encontra um conhecido e um grupo de pessoas numa interação que termina em um convite para ir para um lugar mais reservado. Ao aceitar a proposta sua noite dá uma reviravolta mortal. Apesar da história ter uma boa ambientação, a leitura é polvilhada por uma sensação incômoda de déjà vu, a trama perde seu tom realista e verossímil ao adotar um desenvolvimento hollywoodiano e bidimensional. 

"Caixão Fechado":  Ismael e Rodney são melhores amigos desde a infância, na adolescência um deles percebe uma situação incômoda, que seu amigo é muito mais bonito e uma rachadura começa a se formar nessa amizade. Essa fissura se transforma em um abismo na vida adulta, embora ambos ainda continuem próximos. Quando uma moça se insere no meio dessa relação o resultado é sangrento e mortal. É um conto interessante sobre relacionamentos tóxicos, amizade e paranoia, com várias reviravoltas até a linha final. 

"LP": Alcides encontra um LP em um sebo com uma dedicatória escrita por um homem que sofria por amor, aparentemente ele cometeu suicídio e deixou o disco como presente para sua amada, para que sempre que ela o ouvisse, os dois estivessem juntos. Alcides vai descobrir que essa afirmação é muito mais literal do que imagina e entrará em uma odisseia de horror. É uma ótima história de assombração e obsessão para além da vida. 

"Aniversário": No seu aniversário de oitenta e seis anos, Seu Lair reencontra velhos amigos. Um conto curto e nostálgico que usa o sobrenatural para refletir sobre a falsidade de velhos moralismos e o significado da felicidade. O céu de um homem pode o inferno de outro. 

"Obsessor": Valdo Bastos é um jornalista policial que vai cobrir um caso de assassinato onde supostamente aconteceu um ritual de magia negra, o suspeito decapitou uma criança e foi morto pelos policiais. A traumática cena do crime fica impressa em sua memória e logo acontecimentos estranhos ao seu redor indicam que algo o está perseguindo. Mais uma história longa sobre assombração, explorando o tema a partir de perspectivas religiosas diferentes do usual no gênero, com uma atmosfera sufocante e imersiva. 

A coletânea fecha de forma altamente satisfatória com a conclusão de "Estudo de Anatomia" em uma narrativa atual que reflete sobre os discursos preconceituosos que perpassam o Brasil contemporâneo. Morto não fala e outros segredos de necrotério oferece histórias brutais e viscerais que deixam um gosto amargo e ácido após a leitura, seus temas compõe um mosaico realista e assustador da sociedade, fertilizando o solo da mente para uma colheita farta de pesadelos e sonhos ruins. 

  Morto Não Fala (2021) | Ficha Técnica 
   Autor: Marco de Castro
   Editora: Darkside
   Páginas: 272 páginas
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   Nota: ☠☠☠☠☠☠☠☠ (9/10 Caveiras)

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