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Resenha | Antologia Dark, org. de Cesar Bravo


Stephen King é um dos mais importantes escritores contemporâneos de terror e por quase meio século seus livros e adaptações para o cinema e quadrinhos vem assustando gerações de leitores, que encontram em seus escritos um reflexo de seus medos mais profundos e anseios proibidos. Como contador de histórias sua habilidade em inserir o terror em ambientes cotidianos e realistas ao lado de uma caracterização assustadora da escuridão que jaz oculta na alma humana, onde a propensão para violência viceja em situações de vício e abuso, são o combustível para algumas das narrativas mais arrepiantes já produzidas dentro do gênero.

Sendo o autor de terror mais publicado no Brasil, a influência de Stephen King é sentida na obra de centenas de escritores, cineastas e músicos brasileiros que o citam como uma inspiração importante para suas próprias histórias. Sua capacidade de traduzir os medos individuais, coletivos, sociais e culturais dos americanos se estende ao solo brasileiro, mas é a produção nacional a grande responsável por fazer crescer as raízes de sua influência no nosso contexto, cuja ação revira memórias pútridas e tabus macabros da sociedade brasileira, um trabalho que começou nas primeiras traduções de suas histórias e nas dublagens de seus clássicos cinematográficos e que hoje é continuado pela ótima safra contemporânea de escritores brasileiros de terror.

Dentre todos estes nomes o que fulgura mais resplandecente é o de Cesar Bravo, autor que começou sua carreira de maneira independente utilizando estruturas narrativas de Stephen King para moldar seus contos de terror e suspense, ao mesmo tempo que renovou o cenário nacional apresentando uma voz única e um estilo próprio genuinamente brasileiros. Sua popularidade entre os leitores do gênero foi cimentada com a publicação de Ultra Carnem e VHS: Verdadeiras Histórias de Sangue, isso faz de seu nome uma escolha perfeita para organizar uma antologia em homenagem Stephen King.

Antologia Dark compila uma lista notável de escritores brasileiros que utilizam a sua história favorita de Stephen King como inspiração para criar um conto de terror inédito. As histórias são didáticas o suficiente para funcionarem sozinhas, sem nenhum conhecimento prévio do leitor à obra de Stephen King, as pequenas notas introdutórias de Cesar Bravo servem bem como elo explicativo. Porém no contexto geral da antologia e da proposta conhecer a obra que serviu de inspiração ajuda a entender as ligações, escolhas, referências e abordagens temáticas utilizadas pelos autores e transforma totalmente a experiência de leitura. Sendo assim a análise detalhada de cada conto a seguir, serve como apoio e guia para quem não leu todos os livros de Stephen King citados.

Creed de Cláudia Lemes, inspirado em O Cemitério

A dificuldade em processar a dor da perda de um ente querido, seja a de um familiar ou a de um animal de estimação, é a experiência traumática que norteia um dos livros mais perturbadores de Stephen King, O Cemitério. Há duas metáforas potentes ao redor da imagem que dá título a obra, o “simitério” de bichos ilustra sua forma benéfica, a que ajuda as crianças a lidar com o sofrimento advindo da morte de seus animais, e o cemitério Micmac, que representa o mau para aqueles que não conseguem aceitar a perda de entes queridos e que ressuscita os mortos enterrados em seu solo em versões demoníacas.

Creed expande a obra de Stephen King e faz uma abordagem claustrofóbica da dificuldade em processar o sentimento de culpa, uma contraposição inteligente à temática do livro. A decaída da família Creed em uma espiral de horror ganha velocidade e dramaticidade após um caminhão atropelar um de seus membros mais jovens. Stephen King aborda o horror a partir do ponto de vista da dor da família vitimada, enquanto Cláudia Lemes constrói um suspense psicológico explorando o que teria acontecido com o caminhoneiro envolvido na tragédia.

O acidente não destruiu apenas a vida da família Creed, mas também a do motorista Asher Linton, absolvido pela justiça, mas condenado pela sociedade. Abandonado pela esposa, sua existência se divide entre os cuidados com sua avó catatônica e sessões de terapia, onde evita confrontar o evento traumático que é a fonte de seus problemas psicológicos. A repetição diária ad infinitum dessa rotina é bruscamente interrompida quando a palavra Creed escapa pelos lábios secos de sua avó, que há mais de dez anos não pronunciava som algum. A tentativa de Asher de entender esse evento desencadeia uma sucessão de ocorrências que culminarão em um desfecho sangrento.

No final surpreendente de Cláudia Lemes a mesma mensagem que Stephen King passa em O Cemitério utilizando o sobrenatural é construída a partir de um ponto de vista realista e dolorosamente visceral. Creed mostra que nem sempre é necessário ser enterrado em um cemitério maldito para que a inocência e doçura sejam corrompidas. Os traumas desempenham esse papel muito bem.

O Zagueiro de Vitor Abdala, inspirado em Blockade Billy

Se os melhores trabalhos de Stephen King são marcados por seus protagonistas escritores, os de Vitor Abdala também o são por seus repórteres intrépidos e suas investigações de mistérios macabros. A arrepiante história de fantasma do conto A Bizarra Entrevista com Nivaldo Fonseca e a conspiração demoníaca do romance Caveiras são exemplos de seu domínio em unir uma sólida ambientação cotidiana em contraposição ao horror sobrenatural. 

Seu terror é profundamente ancorado na realidade e é a sua contextualização narrativa, promovendo discussões de tabus e problemas sociais, que torna seu texto perturbadoramente verossímil  e acessível. O Zagueiro não é diferente, com pequenas alterações nos nomes dos envolvidos, evoca os horrores de um crime que chocou a sociedade brasileira. A imagem do jogador de futebol famoso, o sonho que perpassa dezenas de infâncias, manchada por um assassinato covarde e cruel.

O zagueiro da história é Breno acusado de matar sua esposa e filha, dadas como desaparecidas há semanas. Apesar da cobertura midiática da denúncia, poucas pessoas acreditam que o atleta da Seleção Brasileira prestes a jogar na Europa, o estereótipo do ídolo do esporte sempre simpático nas entrevistas, pudesse esconder um lado sombrio. É em uma coletiva de imprensa convocada para às quatro da madrugada que o jornalista Michel Horta descobrirá que até o sorriso mais sincero possui segredos em sua composição.

Vitor Abdala oferece uma discussão importante sobre como a mídia retrata certas notícias a partir de pontos de vistas específicos, se em Caveiras a crítica era como o assassinato sistemático de moradores da periferia pela polícia era noticiado, desta vez é a violência doméstica e a falta de credibilidade que é dada ao relato feminino de abusos cometidos por figuras públicas. O destino de Miguel Horta é condizente com sua negativa em publicar  acusações contra o zagueiro Breno quando contatado pela esposa pela primeira vez. A temática do atleta com um segredo obscuro de Blockade Billy é adaptada com perfeição ao contexto brasileiro em O Zagueiro.  

Granizo Fino de Cesar Bravo, inspirado em O corpo

O Corpo de Stephen King é uma história sobre amizade e amadurecimento onde um grupo de quatro amigos parte em uma jornada em busca do corpo de um menino de 13 anos atropelado por um trem. Cesar Bravo contrapõe esta premissa de forma inteligente ao narrar a história por trás do cadáver, os acontecimentos que levaram o jovem até sua morte naquele exato lugar. Mostrando que nem todos possuem o privilégio de amadurecer.

Antes de ser um corpo ele era um menino com sonhos e aspirações conhecido como Lagosta, que morava em Chamberlain, a mesma cidade que anos depois sentiria a vingança de Carrie. A história de Cesar Bravo é solidamente ancorada no universo de Stephen King, há por exemplo, uma menção a um tal Dr. Deighan, seria ele um parente próximo de Steve Deighan, o amigo do odioso Billy Nolan de Carrie? Mas o destaque é a menina que Lagosta encontra na floresta, Claire Wise. Ela está sendo caçada por moradores de Derry e é referenciada como "tendo mais nomes que um palhaço de circo."

Granizo Fino complementa a temática de O Corpo de forma interessante oferecendo um comovente confronto com a mortalidade em primeira pessoa. Se os personagens de Stephen King encontravam refúgio de pais bêbados e irmãos agressivos em seus vínculos de amizade, o Lagosta de Cesar Bravo não encontra suporte moral e emocional suficiente e acaba fugindo de casa. Mesmo conhecendo seu final, é impossível não torcer e se emocionar com Lagosta. Mais uma narrativa certeira de Cesar Bravo.

Hora da Bruxa de Carol Chiovatto, inspirado em A Hora do Vampiro

Em uma homenagem que já começa no título da tradução brasileira clássica do romance sobre vampiros de Stephen King, Carol Chiovatto constrói uma história cheia de camadas e reflexões partindo de uma perspectiva original, que se encaixa com perfeição à essência de Salem´s Lot. Sua narrativa perpassa três núcleos temporais diferentes e mostra que há uma constante nos atos de crueldade praticados socialmente: a insensatez humana em fazer pré-julgamentos de seus semelhantes baseados em crenças rasas e inverídicas e o uso dessa própria crença para justificar atos de violência e brutalidade. Seja em um vilarejo medieval ou em plena ditadura militar, a morte de inocentes parece atrair criaturas com sede de sangue, sejam elas sobrenaturais ou não.

Porta não Encontrada de Everaldo Rodrigues, inspirado na saga A Torre Negra

A Torre Negra é uma das obras mais complexas de Stephen King e em torno da qual grande parte de suas histórias orbita, com referências que vão desde a filmes de faroeste dos anos 1960 até lendas arturianas, é um grande épico que desafia classificações. A compreensão de sua enormidade por si só já é um desafio para aqueles que se atrevem a inserir suas criações neste universo. Joe Hill, filho de Stephen King, silenciosamente tem feito com relativo sucesso essas incursões nos últimos tempos. 

Mas como homenagear uma série complexa em um nível micro, sem perder a essência do nível macro? A resposta é o conto de Everaldo Rodrigues. O primeiro ponto é a atenção extrema a pequenos detalhes, rastros da influência que a Torre Negra deixa nos mundos, isso pode se traduzir tanto na repetição de um número cabalístico para a saga, o dezenove, em diversos momentos da trama, até mesmo na referência utilizada na construção do protagonista, Edwin, o nome do meio de Stephen King.

O verdadeiro acerto está na força que impulsiona o personagem, uma inquietação que o leva a desvendar a ação do sobrenatural em seu cotidiano, uma apreensão misturada com excitação. Para Edwin isso se materializa em uma porta dentro do seu escritório no décimo nono andar. Atravessar para o desconhecido pode trazer respostas, mas também pode guiar a horrores além da imaginação. Everaldo Rodrigues consegue suscitar a essência da Torre Negra em sua ambientação e ainda entrega um final arrepiante e impecável.

Cárem Sinistra de Marco de Castro, inspirado em Carrie

Em Cárem Sinistra, Marco de Castro mostra que o horror é universal ao transportar uma versão condensada de Carrie de Stephen King para o contexto brasileiro, seu texto funciona pela qualidade com que adapta a história de uma adolescente de uma pequena cidade dos Estados Unidos à realidade cultural, social e religiosa do Brasil. A história de Cárem é conhecida. A jovem vista como estranha por seus colegas e controlada por uma mãe ultra-religiosa. Carém sofre nos dois ambientes em que deveria se sentir protegida, em casa nas mãos da religiosidade sádica da mãe e pela crueldade de seus colegas na escola. Depois de um incidente de bullying que vai longe demais, ela mostra a todos as consequências mortais de uma humilhação.

Santa Negra de Ferréz, inspirado por Aluno inteligente

Um jovem ansioso para ouvir relatos em primeira mão sobre atrocidades cometidas por policiais durante o cumprimento de seu dever encontra um sinistro policial aposentado da ROTA que relembra seu envolvimento em atos de crueldade e covardia. O confronto entre a inocência ávida por violência e a experiência assombrada pela violência, presente em Aluno Inteligente de Stephen King, é transposto com propriedade por Ferréz para o contexto brasileiro. Atacando a raiz dos discursos de ódio e ressaltando a truculência policial na periferia, Santa Negra é uma lição aterrorizante sobre como poder e preconceito fazem emergir horrores mais mortais e perigosos que qualquer invenção sobrenatural, um horror que advém das profundezas da alma humana.

O Amanhã de Ontem de Ilana Casoy, inspirado em Jogo Perigoso e Novembro de 63

Uma intrincada e complexa peça de suspense psicológico nascida da mistura do delírio onírico de Jogo Perigoso com a percepção de maleabilidade temporal de Novembro de 63, onde uma ação individual talvez possa impedir um evento terrível de acontecer e por consequência alterar o destino. Preso em uma cela escura um homem é obrigado a enfrentar fantasmas de seu passado, entre desorientação e projeções e culpa, realidade e pesadelo se canibalizam. Será possível também ser assombrado por fantasmas do futuro?

O Visitante de Fernando Toste, inspirado por A Metade Sombria

Houve uma época em que Stephen King escrevia seus livros sob uma nuvem de drogas e álcool, são histórias das quais ele mal se lembra de ter escrito e que lhe passam a estranha impressão de que foram produzidas por outra pessoa. Depois de combater esses vícios, utilizou a narrativa de A Metade Sombria como uma espécie de exorcismo para os demônios internos que abalavam a continuidade de sua carreira e família. A premissa pode ser lida tanto como uma história de doppelgänger como uma metáfora para às drogas, cuja dependência cria uma pessoa totalmente diferente da personalidade comum do usuário e indiferente ao seu cotidiano e circulo familiar. 

Todos esses elementos são brilhantemente referenciados por Fernando Toste em O Visitante. Quando uma voz estilhaça o silêncio da madrugada e diz para o protagonista escrever e não olhar para trás, ele o faz. O estranhamento logo é substituído pela repetição, a sinistra entidade parece ser invocada por seu estupor alcoólico, e a cada noite, a medida que o texto cresce, a saúde de seu corpo decai. Para sobreviver à loucura que insidiosamente se imiscui em seu cotidiano, ele precisará enfrentar de uma vez por todas aquilo que o atormenta.

Retorno ao Ciclo do Lobisomem de Alexandre Callari, inspirado por A hora do Lobisomem

A história de Alexandre Callari oferece uma homenagem com múltiplas camadas à clássica história de lobisomens de Stephen King. Seu protagonista é fã do autor e defende com unhas e dentes sua obra diante das críticas de seu melhor amigo. A sacramentação de seus argumentos se dá após uma sessão do filme Bala de Prata, quando sua mente rompe a barreira da sanidade e liberta o monstro que vive dentro de cada um de nós. 

O Terceiro Testamento de Antônio Tibau, inspirado por A Zona Morta 

As histórias de Antônio Tibau e Stephen King se apoiam na mesma espinha dorsal. Um protagonista que luta para entender suas visões paranormais e as escolhas éticas e morais que permeiam seu uso. Ao invés de um assassinato político, O Terceiro Testamento, introduz generosas doses de messianismo. A história de seu protagonista, em partes, é semelhante a do serial killer brasileiro Febrônio Índio do Brasil, que também escreveu um livro, As revelações do Príncipe do Fogo, a partir das mensagens que lhe eram transmitidas em seus devaneios oníricos. 

Se o Johnny Smith de Stephen King desenvolve seus poderes após acordar de um coma por vários anos, o João de Tibau enfrenta seus demônios desde a infância, quando foi diagnosticado com esquizofrenia. Sua narrativa ilustra a evolução do personagem de um ponto inicial de ambiguidade até que não tenha dúvidas sobre a veracidade de suas visões. Um caminho em que a dissolução de dilemas morais deixa uma trilha de sangue.

Exotermia de André Pereira, inspirado por A Incendiária

Exotermia é um conto curto que funciona muito bem como um epílogo para a A Incendiária. Stephen King em sua obra conta a história de Charlie McGee, uma pirocinética, que está fugindo com seu pai de uma poderosa organização secreta do governo conhecida como A Oficina, responsável pelos experimentos que ocasionaram suas habilidades especiais. A história de André Pereira se passa mais de trinta e cinco anos após os eventos do livro e mostra uma Charlie McGee mais velha enfrentando os mesmos problemas de sua infância, a perseguição da agência governamental e dificuldades para controlar seus poderes.

Grand Finale de Soraya Abuchaim, inspirado por Saco de Ossos

Stephen King propõe em Saco de Ossos uma discussão metódica de como os mortos afetam os vivos, seja na forma de uma memória dolorosa de um ente querido falecido ou em forma um fantasma raivoso, discutindo questões como o porque das pessoas morrerem, como a vida continua após a morte e porque alguns mortos voltam para assombrar os vivos. Soraya Abuchaim insere alguns desses elementos para contar a história de um mágico que pretende utilizar truques para criar experiências assustadoras em uma casa supostamente assombrada, e que logo descobrirá fenômenos inexplicáveis para além de qualquer artifício ou artimanha científica. Grand Finale tem uma ótima conclusão para uma história de fantasmas, porém estruturalmente o tipo de representação de casa assombrada se afasta do horror gótico de Saco de Ossos para se aproximar do horror de O Iluminado.

Miséria de Andrea Killmore, inspirado por Misery: Louca Obsessão

Andrea Killmore, pseudônimo de Ilana Casoy e Raphael Montes, se utiliza de diversas referências à obra de Stephen King para construir um pastiche irônico surrealista. Uma jornalista publica um artigo polêmico criticando Stephen King, ou mais especificamente a decisão da Darkside de lançar uma antologia baseada nas obras de King. O que ela pensou que lhe traria notoriedade, no fim acaba sendo o início de uma série de incidentes bizarros.
 
   Antologia Dark (2020) | Ficha Técnica 
   Organizador: Cesar Bravo
   Autores: Cláudia Lemes, Vitor Abdala, Everaldo Rodrigues et al.
   Editora: Darkside Books
   Páginas: 224 páginas
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   Nota: ☠☠☠☠☠☠☠☠☠ (9/10 Caveiras)

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