O Demônio ao longo dos séculos assumiu muitas formas na literatura de horror, de um simples delírio religioso passou a ser uma entidade real com uma presença macabra e marcante, os autores foram amplamente influenciados pelo pensamento social da época em que viveram e atualmente o estigma de Pazuzu em O Exorcista é a referência que norteia histórias sobre exorcismos e manifestações demoníacas. 

O Demonologista não é diferente, Andrew Pyper conseguiu tecer uma trama ágil e cheia de mistérios misturando a ação típica de thrillers com a tensão das cenas de horror, unindo a visão medieval do mal, através das citações de Paraíso Perdido de John Milton, com o ambiente claustrofóbico moderno de livros como O Bebê de Rosemary de Ira Levin e A Profecia de David Seltzer, o resultado é um dos melhores livros de terror publicados no Brasil nos últimos anos. 

O demonologista é o professor David Ullman, especialista nas várias manifestações da figura demoníaca na literatura, em especial na visão pouco ortodoxa de O Paraíso Perdido, livro que fala sobre a queda de Lúcifer e a expulsão de Adão e Eva do paraíso. Seu profundo estudo teórico aliado a seu ceticismo natural fazem com que veja a religiosidade como uma mitologia ultrapassada, um misticismo em decadência.

Tudo muda quando uma estranha mulher entra em seu escritório, carregando consigo um cheiro de enxofre ela o incita a fazer uma viagem até Veneza, onde toda sua experiência e conhecimento poderão ser testados na prática. Ullman vê a viagem como uma espécie de escape para os problemas pessoais e uma maneira de reaproximação de sua filha, após convencê-la a acompanhá-lo passam os melhores dias de suas vidas perdidos como turistas da cidade italiana. 

O horror começa quando Ullman decide investigar o endereço que a mulher lhe havia dado. Uma casa aparentemente normal, escondida entre as grandes criações arquitetônicas renascentistas, que tem suas janelas protegidas por pesadas cortinas. À porta é aberta por um médico em péssimo estado, com roupas amassadas, olheiras profundas e barba por fazer é uma figura estranha que reacende a chama ancestral do medo no professor. Com poucas palavras o conduz até um quarto em um corredor escuro, do outro lado da porta fechada é possível escutar uma respiração pesada, como se um afogado buscasse sofregamente por ar, após indicar que ele devia entrar, o médico desaparece. 

Ullman sozinho na escuridão se vê sem opções a não ser abrir a porta e matar sua curiosidade. O que seus olhos veem é um profundo golpe devastador em suas crenças e abala as estruturas de sua alma. Fortemente amarrado em uma cadeira, jaz um homem de meia idade, seus ferimentos resultado de uma luta feroz para se soltar mostram o quão debilitado ser corpo está, mas seus olhos são diferentes. Possuem uma aura de maldade e sabedoria que ultrapassa o tempo e espaço. Sua voz é como o som de fricção de cacos de vidro nos tímpanos e suas palavras carregam um horror ancestral. 

Andrew Pyper constrói uma narrativa em primeira pessoa habilmente, a sutileza das visões e horrores que se sucedem com o protagonista o fazem questionar sua própria sanidade, o leitor é envolvido por uma neblina sobrenatural que o desafia a acreditar no que está lendo ou aceitar que tudo aquilo não passa de histeria traumática. 

E é bom escolher o lado certo porque no fim não adiantarão lágrimas e súplicas para que um poder maior o salve do que está contido entre as páginas. A construção das cenas de horror é primorosa, não são poucas as vezes que o leitor é acometido por aquela incomoda sensação de estar sendo observado enquanto lê, conseguindo arrancar arrepios com algumas cenas icônicas como a estranha figura da menina à beira estrada pedindo carona e da adorável velhinha que esconde seus segredos na escuridão do porão. 

A única ressalva é com relação ao final, tudo se desenrola tão rápido que é uma surpresa quando a narrativa acaba e algumas pontas soltas não são amarradas. Ira Levin e David Seltzer conseguem concluir seus livros com cenas fortes e marcantes que deixam o leitor sem fôlego ao término da leitura, Pyper tentou fazer o mesmo mas não obteve o sucesso desejado. 

Mas muitas vezes não é o destino o mais importante e sim a própria viagem, o autor consegue  transportar o leitor através de uma sinuosa rodovia, cheia de paisagens assustadoras e sombras que se movem, figuras aparecem no acostamento suplicando por ajuda, mas não se engane pelos rostos conhecidos em pranto, o mal está à espreita em cada curva e um simples deslize pode ser sua danação. Pegue seu crucifixo e sobreviva a viagem! 

   
  O Demonologista (2015) | Ficha Técnica 
   Título original: The Demonologist (2013)
   Autor: Andrew Pyper
   Tradutora: Cláudia Guimarães
   Editora: Darkside Books
   Páginas: 320 páginas
   Compre: Amazon
   Nota: ☠☠☠☠☠☠☠ (9/10 Caveiras)