Psicose é uma obra clássica do horror e do suspense escrita por Robert Bloch no final da década de cinquenta se tornando base para o gênero e inspirando muitas das obras seguintes que se apropriaram da nova visão de narrativa que o autor apresentou a literatura na época, o horror como sendo fruto da mente ao invés do habitual sobrenatural, sendo assim um dos precursores do horror urbano moderno. No Brasil, Psicose, estava fora de catálogo há mais de 50 anos e era considerada uma obra rara, sendo encontrada em livrarias e sebos a preços exorbitantes em edições de péssimo estado e com gramática totalmente desatualizada. Recentemente a Editora DarkSide® relançou o livro, com edições em brochura e a de capa-dura de colecionador recheada de fotos do filme com uma tradução impecável.

Robert Bloch foi um autor que sofreu muito a influencia de H. P Lovecraft. Seus trabalhos iniciais demonstram sua inclinação a literatura fantástica, era membro ativo do "Lovecraft Circle" mantendo comunicação com vários outros grandes nomes do horror como Clark Ashton Smith, August Derleth e o próprio Lovecraft que foi a fonte inspiradora de seus contos. Dá pra notar um pouco disso, em Psicose, através dos livros da biblioteca de Norman Bates que fazem referências ao ocultismo e bruxaria. Com o passar dos anos a escrita de Bloch foi se refinando na mesma medida que seu estilo se tornava mais singular e pessoal de modo que seus escritos passaram naturalmente do horror sobrenatural para o microcosmo assustador da mente humana. Em Novembro de 1957, Ed Gein era preso por crimes que ultrapassavam o limite da credulidade humana nas razões e porquês, nascia assim à inspiração para Norman Bates e Bloch lançou-se na notável tarefa de explicar a mente de um assassino.

A história de Psicose é simples gira em torno dos acontecimentos iniciais e suas ramificações de causais. Uma jovem mulher  sente a chance de mudar de vida quando a oportunidade de ouro surge e acaba roubando uma soma admirável de dinheiro do banco em que trabalha. Seu nome é Marion Crayne e em sua cabeça tenta a todo custo justificar seus atos em nome do amor. Em uma fuga desesperada, ela tenta cobrir seus rastros e vai atrás de seu noivo com a história de que recebeu uma herança de um parente distante, mas a emoção e excitação de seus recentes atos atrapalham seu senso de direção e Mary acaba se perdendo em meio a uma noite chuvosa no caminho desconhecido. Após ter desistido da ilusão de que o caminho havia mudado encontra um pequeno motel de beira de estrada, com o letreiro desligado ela quase passa direto mas mesmo em meio à escuridão da noite consegue ler: Motel Bates.

Norman Bates está cansado após mais uma de suas discussões com a Mãe. Imerso na leitura não nota a passagem do tempo acompanhado da tempestade e do crepúsculo e sua Mãe vê nisso, como em quase todas as suas ações motivo para reclamar. Norm é um homem de quarenta anos que nunca saiu debaixo da saia da Mãe, loiro e gordinho traduz em sua fisionomia a expressão filhinho da mamãe  coisa que o próprio ao menos tem coragem de admitir como verdade. Nessa noite em especial, sua Mãe doente está mais irascível que regularmente e a discussão reflete todas as decepções e medos guardados a fundo durante os anos e que pela má conservação apodreceram e ficaram piores. 

Porém são interrompidos pela chegada de um novo hospede. Uma mulher loira. Norm a atende com cordialidade mas não pode disfarçar a timidez, nunca esteve com mulher alguma em todos seus anos sem ser a Mãe e qualquer presença feminina o deixa desnorteado. Mesmo assim consegue travar algum dialogo com a hospede e acaba a convidando para um jantar em sua casa, localizada na colina atrás do Motel. Tudo discorre de maneira relativamente normal e a mulher se encanta com a timidez do dono do motel. Acha engraçada sua maneira até um pouco antiquada de ser. Porém a Mãe Bates não gosta nem um pouco da situação. Não é uma mulher qualquer que vai seduzir seu filho amado. É então que temos a célebre cena do chuveiro.

Após a morte da Mary, Norman se vê em um frenesi para ocultar o acontecido e proteger sua Mãe. A maneira como Bloch  retrata o relacionamento Mãe/Filho é sem precedentes e é o que dá o toque do horror a história pois incita no leitor memórias pessoais de sua própria mãe. Norm era o filho único e foi criado sem influência paterna alguma, sua única conexão com o mundo era através da sua mãe por quem desenvolveu um amor acima de qualquer sentimento existente e com força para superar até a morte. Um amor que chega as raias do complexo de Édipo, curioso notar que sempre que Norman se refere a Mãe seja verbal ou em pensamento, a palavra tem conotação maiúscula e assume uma posição infantil perante ela. 

Outro pequeno detalhe é a dissociação a personalidade de Norm que se reflete nas suas ações ao longo da trama, conforme as investigações se aproximam da verdade sua noção da realidade se torna surreal e a grande comprovação ocorre na hora do barbear na frente do espelho, onde mesmo com óculos ele não consegue ver seu reflexo nitidamente. Psicose é um dos casos raros em que filme e livros se enriquecem mutuamente. Por isso digo: Veja o filme antes de ler o livro. Mesmo conhecendo o final, a leitura não é comprometida em nenhum segundo ao invés se torna mais detalhada e perceptiva além de que as cenas adquirem trilha sonora. É um livro forte e impactante, cheio de suspense e uma profunda dissecação da personalidade humana. 

   
  Psicose (2013) | Ficha Técnica 
   Título original: Psycho (1959)
   Autor: Robert Bloch
   Tradutora: Anabela Paiva
   Editora: Darkside 
   Páginas: 240 páginas
   Compre: Amazon
   Nota: ☠☠☠☠☠☠☠ (10/10 Caveiras)