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11 de agosto de 2018

Resenha | O Colecionador de John Fowles



O Colecionador de John Fowles é uma das obras mais impactantes da década de sessenta, ecos de sua influência são percebidos desde a escrita de Thomas Harris e Stephen King, passando pelas letras de Corey Taylor no Slipknot, até as homenagens e citações em programas de televisão e séries policiais, como Os Simpsons e Criminal Minds. 

O livro publicado em 1963 e sua adaptação cinematográfica lançada 1965 carregam um estigma sombrio: vários serial killers e sequestradores dizem ter se inspirado na sua história para cometer seus crimes. O caso mais famoso é o de Leonard Lake e Charles Ng, que em 1985 sequestraram duas garotas no que chamaram de "Operação Miranda", uma referência a protagonista de O Colecionador. Como explicar essa marca que o livro de estreia de John Fowles deixou na cultura pop?

Para entender a sua importância é preciso retornar a década de 50, quando o gênero estava saturado de produções sobre vampiros e monstros que viviam em mansões e castelos decrépitos. As pessoas já não se identificavam ou temiam essas criaturas, as guerras haviam mostrado o pior lado do ser humano e criado novos monstros, o imaginário coletivo voltava-se para uma nova direção. Richard Matheson e Robert Bloch foram alguns dos autores que entenderam essa mudança e traduziram para suas histórias o medo que assombrava a época: o horror estava dentro das pessoas e não fora.

Psicose, principalmente a adaptação de Alfred Hitchcock, cimentou essa ideia ao transportar a origem do horror,  do velho continente ou de um país exótico, para o coração da América. O monstro não era mais uma criatura que se escondia na escuridão, na verdade ele já estava entre nós, espreitando nossos passos em silêncio. Podia ser o estranho na rua que caminhava despretensiosamente atrás de você, ou seu vizinho, ou pior, alguém da sua família, apenas esperando o momento certo para atacar. 

John Fowles transpõe em suas páginas com perfeição esse sentimento ao apresentar Frederick Clegg, que assim como Norman Bates, é aterrorizante por aparentar tanta normalidade na sua superfície. Não existe nenhum sinal visível que identifique sua índole, nada de presas longas ou deformações repulsivas, ele é exatamente como qualquer um de nós, sua atuação consegue enganar a todos de seu convívio social. O Colecionador vai além de um romance de suspense normal ao inserir questões filosóficas no seu enredo, Fowles disseca a alma humana criando uma trama que é muito mais do que uma leitura rasa deixa entrever, cenas que parecem banais são carregadas de sentido social e psicológico e exploram nossas ações e reações diante do extremo.

Esse efeito é amplificado pela escolha em dividir o romance em duas partes: na primeira somos forçados a adentrar à perspectiva psicótica de Clegg, experimentar sua relação doentia com as outras pessoas e sua obsessão por Miranda Gray, a quem sequestra na esperança de que se apaixone por ele assim que conhecê-lo melhor; na segunda temos a visão claustrofóbica e desesperada de Miranda, imersa em um inferno físico e psicológico, cuja vida está nas mãos de um monstro que apenas ela conhece.

A partir dessa premissa Fowles tece uma história que analisa as motivações humanas, sempre contextualizando a influência da sociedade que nos cerca na nossa formação. Clegg tem uma relação distante com seus familiares e colegas, sua condição de trabalho subalterno associada as suas percepções sobre seu intelecto e condições financeiras são a força motriz do sequestro de Miranda.

De uma forma inteligente e sagaz o autor demonstra nas entrelinhas que a própria sociedade deu as condições para que o monstro em Clegg aflorasse. O monstro não é um estrangeiro ou forasteiro que decide aleatoriamente nos atacar, mas sim uma criação nossa, baseada nas diferenças e oportunidades sociais, ou seja, ele poderia ser literalmente qualquer um, até mesmo você. Eis o então os motivos do grande impacto da obra na cultura popular.

Indico duas maneiras para se ler O Colecionador: uma leitura inicial seguindo a ordem normal da obra, experimentando primeiro a visão de Clegg e depois o desespero de Miranda e uma releitura intercalando os capítulos de Clegg e Miranda em ordem cronológica, o que oferece uma visão global das cenas e revela detalhes que não são perceptíveis na primeira leitura.  

A edição da Darkside traz como bônus uma introdução de Stephen King (cheia de spoilers, leia apenas no final) e um posfácio maravilhoso  recheado de informações importantes do tradutor Antônio Tibau, que analisa e explica as referências artísticas no teatro, literatura, música e artes plásticas de John Fowles. Simplesmente imperdível.

 O Colecionador | Ficha Técnica 
   ISBN: 78-8594541086
   Autor: John Fowles
   Tradutor: Antônio Tibau
   Editora: Darkside
   Páginas: 256
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   Nota: ☠☠☠☠☠☠☠☠☠☠ (10/10 Caveiras)

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