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Resenha Especial: Os Pássaros de Frank Baker & Daphne du Maurier & Alfred Hitchcock

   Os Pássaros de Alfred Hitchcock de 1963 foi um dos primeiros filmes de suspense a explorar com grande êxito a premissa das histórias protagonizadas por animais assassinos, fugindo da perspectiva da ficção-científica, a qual explicava a origem de seus vilões através de mutações radioativas ou como vindos de outra galáxia, para destilar o horror através da máxima de que um simples animal inofensivo em grupo tornava-se um predador feroz.

   Na literatura esse subgênero floresceu nas décadas seguintes e não houve criatura que não inspirasse pesadelos sombrios e asquerosos: James Herbert colocou seus personagens para enfrentar uma multidão esfomeada de ratos em A Invasão dos Ratos; David Fisher explorou o horror de uma família ao enfrentar uma matilha de cães raivosos em A Matilha Assassina, cinco anos antes de Stephen King dar vida ao assustador Cujo; 

   Martin Cruz Smith mergulhou no misticismo indígena para dar vida a horda sanguinária de morcegos-vampiros de Terrores da Noite; Thomas Paige invocou das profundezas ancestrais do planeta besouros carnívoros em A Praga de Hefesto, assim como Ezekiel Boone invocou aranhas canibais em A Colônia; Arthur Herzog mostrou que abelhas são mortíferas em A Invasão das Abelhas e é claro, os pássaros ganharam destaque nas obras de  Frank Baker e Daphne du Maurier, coincidência que mais tarde acabou em polêmica.

   Voltando a Hitchcock, no final de agosto de 1961, ele se deparou com uma notícia bizarra sobre  uma cidadezinha americana, segundo o Santa Cruz Sentinel, os moradores locais foram acordados às três da manhã com o estrondo de centenas de pássaros caindo em cima de suas casas. Os mais corajosos, que pegaram suas lanternas e saíram para ver o que estava acontecendo, foram atacados por bicos e garras num frenesi de violência incitado pela luz.

   Na manhã seguinte as ruas da cidade estavam cobertas por um tapete de penas e sangue, vidros quebrados de janelas e muitas histórias de confrontos entre seres humanos e pássaros. Hitchcock interessou-se pelo tema e iniciou então uma pesquisa para seu próximo filme. O roteiro foi escrito por Evan Hunter, mais conhecido talvez como Ed Mcbain, cuja versão oficial diz que o filme Os Pássaros foi baseado em um conto de Daphne du Maurier publicado na coleção The Apple Tree, em 1952, posteriormente foi levantada a questão da similaridade da premissa do mesmo com o romance de Frank Baker, publicado em 1936.

As Aves de Daphne du Maurier
   The Apple Thee foi publicado no Brasil em 1953 pela editora Mérito, com o tíltulo de Beija-me outra vez, desconhecido e traz a única tradução do conto de Daphne du Maurier, num português anterior à Reforma Ortográfica de 1971. Contém seis estórias: Monte Veritá, uma novela que mescla fantasia e suspense, centrada em uma seita de mulheres que possui  vida eterna, com uma narrativa ágil e imersiva; As Aves; A Macieira, uma interessante estória de vingança entre um casal; O Pequeno Fotógrafo, um drama com um final trágico, porém clichê; Beija-me Outra Vez, Desconhecido, uma história chata com um plot twist interessante e O Velho, pequeno conto com um excelente final.

   As Aves é a melhor estória da coletânea e basicamente é um grande clímax onde um homem do campo tenta proteger sua família de uma invasão de pássaros, seu principal trunfo está exatamente na rapidez com que o suspense evolui, Daphne du Maurier consegue explorar maravilhosamente a sensação claustrofóbica que os protagonistas experimentam ao se verem presos em casa, fazendo uma  grande metáfora com gaiolas. A narrativa é totalmente absorvente e o texto prende o leitor até o final da leitura, muito similar ao apresentado por Hitchcock.

Os Pássaros de Frank Baker
   Há uma grande similaridade entre as narrativas de Os Pássaros de Frank Baker (1936) e A Praga Escarlate de Jack London (1912), ambas utilizam o fim do mundo como premissa para examinar os costumes sociais da Londres de suas épocas. Baker e London abordam o apocalipse de modos diferentes, enquanto o segundo opta pela destrutiva rapidez de uma doença mortal, o primeiro se apóia no lento desgastar das engrenagens sociais como efeito da invasão dos pássaros, porém os resultados são basicamente os mesmos: críticas aos costumes da época, às relações de trabalho e sociedade, assim como uma dissecação do comportamento das pessoas diante de uma catástrofe.

   Frank Baker utiliza o medo, personificado através da figura dos pássaros como ponto de partida para suas análises. A edição da Darkside Books possui uma introdução de Ken Moog, que faz uma ponte essencial entre obra e autor, contextualizando o período real com o ficcional, há muitos traços do próprio autor inseridos no protagonista e conhecendo esse paralelo entende-se melhor algumas das atitudes do personagem. O tom apocalíptico do livro não se foca no fim do mundo como um lugar físico, mas sim na própria ideia de sociedade, aproveitando até o último suspiro da civilização para descrever o quão frágil a mesma é.   

   Como livro de terror Os Pássaros tem um desenvolvimento lento, a escrita de Baker é bem descritiva e o suspense é entregue em pequenas doses ao leitor, o horror é inserido de modo subjetivo nas cenas, como uma senhora sendo atacada em meio à rua durante um belo entardecer, que servem mais para contextualizar as mudanças internas do personagem do que como cenas de horror gráfico. Mesmo assim o ritmo narrativo prende a atenção, a constante ameaça que paira no horizonte aliada a claustrofóbica narração em primeira pessoa, são ingredientes que potencializam a força da conclusão. São as páginas finais que trazem a vertiginosa explosão de penas e sangue que sacia a sede do fã do gênero.  

Sobre Pássaros e Plágios

   O primeiro ponto a se ressaltar é que o filme de Hitchcock possui muito mais em comum com o livro de Frank Baker do que com o conto de du Maurier, dizem que o próprio autor pensou em seguir adiante com um processo por direitos autorais com o filme, mas foi aconselhado sobre a dificuldade que seria efetivamente provar as semelhanças. A polêmica se estendeu à literatura, já que foi descoberto que du Maurier era parente do editor da primeira edição do livro Baker, mas o conflito não foi adiante, Baker e du Maurier entraram em um entendimento amigável, esta afirmou em uma correspondência que desejava que Hitchcock tivesse comprado seu romance ao invés do conto, já que o mesmo é mais profundo e melhor desenvolvido.

  Comparando as duas obras, livro e conto, nota-se que o desenvolvimento narrativo de ambas são muito similares, tanto que o conto poderia ser utilizado como um prólogo para o romance. A época em que ambos foram escritos dita o tom de violência presente, Baker a introduz de forma mais velada, enquanto du Maurier a utiliza de maneira explícita, sendo que sua estória possui menos consciência crítica. Se você procura uma história sobre pássaros que seja rápida e ágil indico sem sombra de dúvidas du Maurier. Agora se procura uma estória mais profunda, que incite reflexão, é em Frank Baker que você encontrará alento. Diferenças à parte, se você gosta do tema animais assassinos encontrará diversão na leitura de ambas as obras.

As Aves de Daphne du Maurier: ☠☠☠☠☠☠☠☠☠☠ (10/10 Caveiras)
Os Pássaros de Frank Baker: ☠☠☠☠☠☠☠☠☠ (9/10 Caveiras)

Um comentário:

  1. Essa Daphne... Consta que seu livro Rebecca seria um plágio de um livro brasileiro, A Sucessora...

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