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25 de junho de 2016

Resenha: Livros de Sangue II de Clive Barker


Sinopse:
     Neste segundo volume de seus Livros de Sangue, Clive Barker nos apresenta cinco novelas de arrebatadora engenhosidade que nos tirarão o fôlego e descontrolarão nossos nervos... "Pavor", "A Corrida do Inferno",  "O Testamento de Jackeline Ess", "As Peles dos Pais" e "Novos Assassinatos na Rua Morgue" são as novelas que compõe esta edição.

Opinião:
    Ler Livros de Sangue é degustar um banquete antropofágico, enquanto criaturas infernais despedaçam cadáveres em uma cópula insana, em a honra a deuses anciões. Clive Barker é uma das mentes mais imaginativas que já se aventurou pela literatura de horror, com sua escrita visceral e explícita sente-se confortável tanto em dar vida a grotescos horrores sobrenaturais, cujas descrições pútridas fertilizam o solo da nossa mente para uma safra excepcional de pesadelos, como em explorar o monstro sanguinário e cruel que habita a essência de cada um de nós. O Volume II continua a diabólica dissecação de seu antecessor e se imiscui pelos caminhos tortuosos do horror psicológico, flertando com o lado erótico do profano até conceber os pesadelos mais perturbadores, recheados com visões infernais que lhe acompanharão até os finais dos tempos:

                                                   Pavor
   O pavor é a personificação mais brutal do medo, é o momento em que a mente se desliga completamente da realidade e tudo o que existe é  "aquilo", mais do que a simples sensação de um calafrio percorrendo a espinha é um horror primitivo, que surge das profundezas do ser e em menos de um segundo destrói os milhares de anos da evolução humana. Uma pessoa dominada pelo pavor está tão próxima da selvageria quanto é possível, apenas quem já enfrentou uma fobia sabe o quão devastador um conflito direto pode ser.  Clive Barker no primeiro conto desde volume explora esse pavor, tece teorias para suas origens e suposições para a sua superação, mas a chave para desvendar esse mistério está na experimentação. E qual a melhor forma de se fazer isso do que forçar as pessoas a enfrentarem seus medos?
   O protagonista terá sua sanidade testada em um experimento que o levará aos limites da percepção humana. Qual é o seu maior medo? Imagine ser trancafiado em um quarto escuro com ele. Ter sua liberdade retirada sabendo que única maneira de sair daquela situação é enfrentá-lo. Pavor é um conto angustiante, uma leitura desconfortável, as descrições das sensações experimentadas pelos personagens são claustrofóbicas e o leitor é forçado a sentir a loucura em primeira pessoa. Quando você chega tão próximo ao âmago de uma pessoa é impossível não sentir a atração de algo dentro de si, e quando o centro dessas atração é a escuridão, o resultado é ainda pior. É uma das melhores coisas que Clive Barker já escreveu. Existe uma adaptação de 2009, que no Brasil recebeu o nome de Lentes do Mal, que consegue passar um pouco do clima da estória, mas em comparação com a mesma é um pálido reflexo do horror aqui exposto. 

A Corrida do Inferno
    E se o apocalipse fosse decidido em uma corrida? Clive Barker presenteia o leitor com  um conto que consegue ser ao mesmo tempo visualmente perturbador e bem-humorado. A eterna luta entre o bem e o mal, que sacramenta a maioria das histórias de terror,  é decidida no que a humanidade vê como uma  simples corrida, são poucos os que sabem a verdade por trás deste evento primitivo. A cada cem anos uma legião infernal vem à Terra para participar da maratona e se vencerem, o mundo acabará, mas se um humano ultrapassar a linha de chegada primeiro, teremos mais cem anos de "paz". 
   O interessante sobre A Corrida do Inferno é que a estória começa diretamente na largada do evento e não acaba no seu final, muitos dos autores modernos prefeririam terminar a estória no fim da corrida, deixando assim uma imensa lacuna a ser preenchida pela imaginação do leitor, mas não. . Clive Barker prefere explorar o limite da sanidade de seus leitores, até que ponto uma mente pode ser bombardeada com visões aterradoras sem se quebrar? Outro ponto é a narrativa, mesmo sendo tão ágil quanto a própria corrida há espaço para o desenvolvimento dos personagens, e a mesma não se resume a apenas o evento, o horror  está nos bastidores e para essa corrida o leitor tem uma credencial de sangue que lhe fornecerá acesso completo a todos os detalhes infernais.

O Testamento de Jackeline Ess
   Não existe assassino, monstro ou criatura divina mais cruel e sádico que uma mulher em sua cruzada em busca de vingança. O Testamento de Jackeline Ess começa como uma espécie de pesadelo onírico, no qual a mesma tenta desesperadamente cometer suicídio em sua banheira, mas é salva a tempo por seu marido. De alguma maneira todas as provações pelas quais passou em vida, mescladas com a experiência de quase morte, lhe despertaram um poder. O poder da carne. E as maravilhas e horrores que pode fazer são inimagináveis. Dito isso seu ódio desperta uma sede de vingança e o que acontece a seguir é digno de uma das memoráveis orgias sanguinárias dos Cenobitas. Esta é uma história de amor, que literalmente, irá despedaçar seu coração.

As Peles dos Pais
   Este é sem sombra de dúvidas um dos contos mais profundos de Clive Barker, uma verdadeira obra de arte que reflete sobre o medo do desconhecido e a angustiante insegurança que advém desta percepção. As Peles dos Pais é a semente que germinou anos depois em Raça da Noite (Nightbreed), diferenciando-se entretanto por ter um tom mais pessimista e por abordar a sexualidade de uma forma mais selvagem e profana. As criaturas desta estória foram abortadas dos pesadelos mais insanos de Clive Barker, um exemplo são as duas criaturas unidas numa espécie de monstruosidade cujo resultado final é mais repugnante que a soma das partes, seus membros esticados e eram enfiados em feridas na carne um do outro. Este é um conto que desafia o leitor a abrir sua imaginação para receber as criações de Barker, o único problema de deixar essas imagens entrarem em nossa mente é que elas jamais irão desaparecer...

Novos Assassinatos na Rua Morgue
      A obra de Clive Barker foi muito influenciada pelos trabalhos de Edgar Allan Poe e a estória que fecha este volume é uma grande homenagem ao mestre e a seu conto clássico. Novos Assassinatos na Rua Morgue é uma história de detetive mergulhada em sangue e vísceras, seu diferencial está no seu conteúdo, pois não se trata de uma releitura e sim de uma espécie de continuação.  O protagonista é neto do narrador do conto de Poe, segundo ele a história dos assassinatos é verdadeira, seu avô em uma viagem à América acabou conhecendo o famoso escritor e lhe contou sobre o acontecido, que mais tarde foi imortalizado nas páginas de seus livros. Como o próprio título já diz uma nova onda de mortes assola a Rua Morgue, mas desta vez a brutalidade dos assassinatos alcança novos níveis de depravação. A leitura vale a pena por seu final sangrento e original. 

Minha nota: ☠☠☠☠☠☠☠☠☠☠ (10/10 Caveiras) 

Um comentário :

  1. Quando li "Pavor" me lembrei daqueles contos e histórias que permeiam a deep web, com suas diversas fotos. sem falar do famosos experimento do sono dos russos. "Corrida" e "testamento" são muito bons, mas as "Peles dos Pais" é um convite ao horror e à insanidade!!!

    Barker é um mito em se falando de horror e sobrenatural... Recomendo aos amigos que leiam o "Nightbreed" - Raça das Trevas. Considero esse livro uma obra prima!!!

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