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27 de maio de 2016

Resenha: Exorcismo de Thomas B. Allen


"Bem-vindo à terra abandonada
Entre aqui criança e pegue minha mão
Há apenas cinco palavras para se dizer
Enquanto você desce, desce, desce
Você vai queimar no Inferno"
 Burn in Hell - Twisted Sister


Ora Pro Nobis...
  Antes de iniciar a leitura é imprescindível que você se dispa de todos os pré-conceitos e estereótipos que a indústria cinematográfica disseminou, a realidade é muito mais chocante e perturbadora que a ficção, independente de sua crença, ou da falta dela, os fatos contidos nesta obra terão um grande impacto sobre a sua visão do sobrenatural e a forma como somos afetados por nossas crenças. Portanto, se isso lhe fizer sentir-se mais agradável, vista o manto de sua religião e tenha em mente as orações que lhe ensinaram quando era criança. No caminho em que você está prestes a entrar há apenas escuridão e a própria esperança fraqueja a cada passo. É hora de dissecar um exorcismo. 

...draco maledicte adjuramus te per Deum... 
    O ritual do exorcismo é observado como prática em diversas culturas antigas, egípcios e babilônios creditavam algumas doenças e desastres naturais à ação de demônios,  muitas das religiões atuais não creem na possessão e a própria Igreja Católica Romana, uma das únicas a ter um ritual formal de exorcismo sancionado, evita posicionar-se nos casos levantados pela mídia moderna. Em grande parte isso se deve pela desconstrução do pensamento medieval, o que antes a religião tinha como possessão, a medicina passou a diagnosticar como distúrbios de esquizofrenia ou de múltiplas personalidades. 
   No Cristianismo o exorcismo é uma cerimônia pela qual um padre expulsa  demônios ou espíritos malignos que infestam uma pessoa, local ou objeto através de uma série de ritos descritos no Rituale Romanum. Enquanto possessão, é uma condição na qual, supostamente, uma entidade assume o controle do corpo e da mente de um indivíduo suplantando a sua vontade, essa posse pode se manifestar em diversos níveis.  Em seu primeiro estágio o espírito, geralmente de algum parente ou familiar recém falecido, paira ao redor da pessoa, suas materializações ocorrem através de pequenos sons, como o arranhar em uma parede ou batidas rítmicas, é o chamado encosto.  
   No próximo estágio as ações do espírito caracterizam-se pela obsessão ao redor de sua vítima, os ruídos aumentam de intensidade e há o deslocamento de pequenos objetos pelo ambiente, ocasionando alterações perceptíveis em seu humor. O último estágio é a manifestação completa de uma possessão demoníaca, caracterizada pela mudança brusca de  comportamento da vítima, a agressividade e automutilação, a aversão a objetos sagrados, como cruzes e água benta, alterações na voz, bem como o domínio de uma língua desconhecida, são exemplos de sinais que identificam um verdadeiro possuído. 
   A recomendação ao exorcista é certificar-se de que o suposto possuído não esteja sofrendo de algum malefício da mente, após todas as hipóteses perturbações físicas serem descartadas é o momento de adentrar ao campo espiritual. O padre deve realizar uma confissão de todos os seus pecados, para que o demônio não  possa utilizar suas fraquezas  como munição durante o ritual, e sob autorização de um bispo, escolher no mínimo duas pessoas para auxiliarem na tarefa. O exorcismo é a última defesa da religião contra as forças do mal, é um momento em que o religioso coloca em perigo sua alma imortal contra forças malignas, na tentativa de salvar outra alma da danação eterna.

.... Ab insidiis diaboli, libera nos, Domine! ...
  O Exorcismo de Thomas B. Allen reconstitui os principais momentos do fatídico exorcismo que aconteceu em St. Louis em 1949, através de um dos relatos mais completos sobre o assunto já documentados, o diário do padre exorcista que realizou o ritual. O caso do menino possuído ganhou as manchetes da época, os poucos detalhes revelados não impediram a mídia de lançar sua imaginação ao redor do acontecimento, anos depois essa cobertura despertaria a curiosidade de William Peter Blatty para o tema e seria a gênese do aclamado O Exorcista.  É interessante ressaltar que Blatty não conseguiu acesso ao material que compõe esse livro, seu romance foi construído a partir de fragmentos de vários casos famosos e apesar de ter entrado em contato com um dos religiosos envolvidos, a licença poética que tomou é gigantesca. 
   A edição da Darkside é a segunda a aportar em terras nacionais e difere da primeira edição por trazer um texto revisado pelo próprio autor, o livro conta, além do texto completo no qual o jornalista faz um estudo sobre o caso, com o diário do padre exorcista, publicado em sua versão integral, e uma seção de notas que especificam as fontes e a bibliografia. Desde o início de sua pesquisa Thomas B. Allen deixa explícita sua visão de observador imparcial, as suposições sobre o que realmente aconteceu naqueles meses com aquela família ficam a cargo dos leitores, seu texto se propõe a narrar os acontecimentos de acordo com as fontes, ressaltando cuidadosamente os pontos de interseção onde sempre que há alguma passagem que não foi bem documentada ou surgem versões divergentes do que possa ter acontecido, a narrativa se divide e mostra os dois lados sem qualquer tipo de interpretação. 
   Exorcismo é uma leitura bastante pesada que, mesmo com sua escrita direta e concisa, demanda várias pausas reflexivas para a análise e digestão dos fatos. Crendo ou não na veracidade daquilo que você está lendo, é impossível passar pelas páginas sem ser atingido psicologicamente pelas descrições simples e ao mesmo tempo brutais do ritual, um exemplo é a chocante cena do batismo do possuído, o ambiente e claustrofóbico da igreja ultrapassa o papel e envolve o leitor como uma pesada mortalha sufocante. Diferente de uma obra de ficção, Exorcismo não permite ao leitor a luxúria de pausar a leitura, durante os momentos de angústia, e refrescar a mente com o pensamento de que aquilo que está lendo não é real. 
   O horror jaz na questão de que aquilo realmente aconteceu, ou ao menos é o que afirmam dezenas de pessoas, entre médicos,  psicólogos, religiosos e familiares que tiveram contato com o menino possuído. Se você busca uma leitura agradável ou é impressionável a ponto de não dormir a noite com a simples sugestão do sobrenatural este livro não é para você, esta é uma obra de não-ficção que vai ao cerne de um assunto tabu e que tira a paz de espírito de muitas pessoas, a religião. A questão de se você sentirá medo ou não na leitura é profundamente pessoal, dependerá daquilo que você acredita. Exorcismo é tão detalhado a ponto de trazer a grande maioria das orações em português e latim, mas não recomendo a leitura em voz alta. Sabe-se lá que tipo de forças você pode acordar...


Domine, exaudi orationem meam. 

Amém.

Nota: ☠☠☠☠☠☠☠☠☠☠ (10/10 Caveiras)

4 comentários :

  1. Cara, essa cena do batismo... sério, foi a coisa que me deixou mais tensa no livro todo. Que sofrimento :(((( Ótima resenha, como sempre. Beijão!

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  2. Mais uma excelente recomendação deste site incrível. Parabéns Rafa e toda a equipe. Que sigam assim.

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  3. Que resenha maravilhosa! Estou na metade de Príncipe Lestat e Exorcismo é minha próxima leitura. Juro que pensei em abandonar o atual e começar logo!

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  4. Tô ansioso para ler, não sei como vou ficar ou o que vou pensar, mas quero ler.

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