O Circo Mecânico Tresaulti é livro poético, a impressão que tinha durante a leitura é a de um poema transformado em prosa, com uma leitura ágil mas que definitivamente não é fácil. Genevieve Valentine tem uma maneira quase surrealista de escrever, a imagem central da história é construída por pequenas cenas que se desenrolam muita vezes sem seguir uma determinada linha do tempo, surgindo como lembranças que encaixam suavemente no presente explicando a dando forma as atitudes e ações dos personagens. 

O protagonista do livro é sem dúvidas o Circo que tem sua história contada aos poucos através dos olhos daqueles que o formam, suas atrações e seus espetáculos. Um livro cheio de camadas e pequenas histórias que não se unem como tradicionalmente se espera, mas se complementam instigando o leitor a chegar até seu amago em busca de respostas.

Primeiramente o cenário sobre o qual a aventura se desenrola é bem construído. Como King diz, é o mundo que seguiu adiante. Mas neste caso ele está ainda caminhando, a partir da realidade que conhecemos para um futuro indistinguível, andando rápido e a passos largos. 

Após muitas guerras as cidades foram arrasadas, destroços de um tempo nostálgico que permanecem como gigantescos cadáveres de pedra ruindo aos poucos sob a ação da natureza, enquanto o que sobrou da humanidade apenas sobrevive buscando levar cada adiante da melhor maneira possível. O governo é algo bastante instável pois revoltas e rebeliões são quase diárias e muitas vezes já nem mais diferença o título de governante.  

A tecnologia regrediu e coisas fúteis e simples pararam de ser fabricadas como tintas e alimentos outrora tão comuns, o mundo perdeu suas cores e com a guerra seu sorriso. É nesse mundo devastado que surge o Circo. Suas cores e atrações mecânicas são algo novo.  A importância do entretenimento em um mundo desses é algo que cujo valor a principio não sabemos comensurar, mas seres mecânicos, quase indestrutíveis e imortais, podem despertar a cobiça de muita gente.

A leitura do livro se torna uma  experiência totalmente desafiadora. O romance não se prende a uma linha narrativa, é quase como assistir a um filme a partir do seu meio retrocedendo e avançando conforme as dúvidas vão surgindo mas sob completo domínio do diretor que escolhe 'o que' e o 'quanto' você pode ver. 

As convenções tradicionais narrativas são todas ultrapassadas, temos um narrador em primeira pessoa com intromissões de narradores em terceira que sem nenhum aviso prévio jogam o leitor através de uma viagem por flashbacks. Na verdade é bem fina a linha entre passado/presente/futuro no livro.  A história se desenrola em lampejos que são rápidos mas fortes o suficiente para deixar a impressão de que você finalmente encontrou um fio da trama central, para quando menos esperar perde-lo em meio a tantas "sub-histórias" seguintes. 

Ao mesmo tempo em que isso ocorre existe uma trama bem definida que se conclui de uma forma bastante significativa no final. Os personagens são convincentes e humanos, cada um possui sua história e as razões por trás de suas ações. Mutilados pela guerra seja fisicamente ou psicologicamente todos acabam no circo e se tornam uma simbiose viva com o metal, que lhes permite feitos incríveis que encantam a plateia. 

Mas onde é que o homem começa e termina a máquina? Até onde sentimentos e sensações são preservados na mudança que ocorre nos artistas do Tresaulti? É um livro que recomendo sinceramente, tanto pelo seu conteúdo como a abordagem do gênero distopia apocalíptica adotado pela autora. O Circo Mecânico Tresaulti é um conto sobre a humanidade, o significado de ser humano e as escolhas que temos que fazer sobre a vida.

   
 O Circo Mecânico Tresaulti (2013) | Ficha Técnica 
   Título original: Mechanique: A Tale of the Circus Tresaulti (2011)
   Autora: Genevieve Valentine
   Tradutor: Dalton Caldas
   Editora: Darkside Books
   Páginas: 320 páginas
   CompreAmazon
   Nota:☠☠☠☠☠☠(10/10 Caveiras)