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14 de dezembro de 2015

Resenha: A Entrega de Dennis Lehane


Sinopse:
   Bob é um bartender solitário e desiludido, que tenta encontrar razões para continuar vivo. Três dias depois do Natal, seu marasmo é interrompido por um latido abafado. Esse filhote de cachorro mudará para sempre a sua vida. Nessa mesma noite, ele conhece Nadia, uma garota sofrida que, como ele, busca algo em que acreditar. Unidos pelo desejo de resgatar o cachorro, Bob e Nadia estreitam seus laços. Quando as coisas parecem ter tomado rumo, eles se encontrarão em um jogo sujo, que envolve a máfia chechena, um assassino, dois trambiqueiros profissionais, um policial e o próprio dono do cachorro. 

Opinião:
    Dennis Lehane é um dos principais escritores policiais da atualidade, sua genialidade é expressada tanto pela qualidade de sua série investigativa, protagonizada pelos detetives particulares Kenzie e Gennaro, como por seus clássicos solo, imortalizados por suas adaptações cinematográficas, Sobre Meninos e Lobos e A Ilha do Medo. Lehane escreve sobre o lado sombrio da sociedade, os becos sombrios que permeiam a vida do americano médio, a rua escura que o trabalhador enfrenta diariamente ao voltar de seu emprego, onde o medo é obliterado pelo odor da violência, um misto de álcool e drogas, um lugar no qual o conceito de maldade e bondade é regido apenas pelo lado ao qual você vê uma arma, uma linha tão tênue que é impossível não sentir a pegajosa mácula de sua sedução dia após dia.
  A Entrega é mais um exemplo de sua habilidade  em dissecar a alma humana, através de pequenos e incômodos cortes no centro de percepção do cérebro, com uma abordagem crua e pessimista da moralidade. Diariamente somos expostos a pequenos conflitos morais que muitas vezes passam despercebidos, seja no inconsciente desviar de olhos diante da imagem de um ser humano mendigando na rua ou na falsa abstração perante uma briga entre estranhos, estamos constantemente enfrentando situações de tensão, momentos chaves que podem mudar completamente nossa vida dependendo da nossa reação, é fácil ignorá-los, isto é, até  a violência que habita os jornais rasgar o véu da realidade, assassinando a  falsa promessa de segurança da sociedade moderna. A Entrega segue esta linha de ação.  Um começo aparentemente inocente é o estopim para uma narrativa explosiva, cujo nível de tensão cresce a cada linha que se aproxima das páginas finais, assim como uma pequena chama percorrendo o caminho de um fio em direção à dinamite, incitada por alguns dos combustíveis mais destrutivos da natureza humana: ódio e a loucura.  
  Clive Barker costuma a dizer que nenhuma estória realmente começa de verdade, o que existe é um gatilho que inicia uma determinada série de eventos, que se reunidos de forma ordeira podem formar uma história ou não. A de Bob começa no momento em que ele encontra um filhote de cão em uma lixeira à beira da morte.   Bob é um sujeito normal, sua existência é imersa em um vácuo de solidão preenchido parcamente pelo seu emprego como bartender, mas por trás de sua atitude de bom moço, de seu jeito reservado e amistoso, por trás até de seu coração mole existe um segredo, algo tão sombrio que jaz enterrado nas profundezas de seu ser, mas que mesmo assim exala uma podridão que ultrapassa as pequenas fendas da insegurança e do medo em sua alma, para se materializar na forma de uma gigantesca desilusão e uma vida sem significado. Mas o cão mudará isso, para melhor ou para pior, no momento em que ele decidiu acolher aquele pequeno filhote machucado, colocou em movimento uma teia de acontecimentos em cujos extremos estão cruéis mafiosos e assassinos, imersos na ganância e na loucura. De um sujeito normal, Bob logo passa a ser um sujeito marcado. 
   A Entrega é um livro inesquecível, mesmo sendo pequeno e ágil, o tipo de leitura que fica impressa na memória, fomentando reflexões e questionamentos por um longo período de tempo. Que tipos de segredos existem por trás do sorriso daquele estranho conhecido que você vê no ônibus ou emprego? É possível realmente conhecer alguém? Olhar nos olhos de uma pessoa e saber se o que ela diz é verdade e distinguir,  mesmo que em um pequeno vislumbre, suas reais intenções? Mais uma vez Dennis Lehane entrega um trabalho impecável, um livro que atravessa a linha moralidade para refletir sobre a condição humana. Seu êxito está na simplicidade do texto. Leitura altamente indicada para fãs de um bom romance policial inortodoxo. 

Nota: ☠☠☠☠☠☠☠☠☠☠ (10/10 Caveiras)

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