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Resenha | (Des)Namorados, organização de Vanessa Nunes

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(Des)Namorados é uma antologia nacional que explora o lado obscuro e pútrido dos relacionamentos amorosos. São oito histórias macabras, divertidas, ácidas, sangrentas e arrepiantes que utilizam como ponto de partida o Dia dos Namorados para mostrar que amor e ódio nascem e vicejam no mesmo recôndito escuro do coração, e que podem não ser tão opostos quanto o senso comum acredita.

O horror das narrativas é tecido a partir da utilização do medo do desconhecido como elemento de análise para particularidades e problemáticas ao redor dos relacionamentos modernos. O ser humano é incognoscível em relação ao próximo, ou seja, é impossível saber com exatidão o que o outro está sentindo ou pensando.

A base para a efetivação das relações provém de uma frágil noção de conhecimento do outro, advinda da suposição do significado que reações e outros elementos físicos externos revelam. Os autores mostram o que acontece quando essa noção é destruída pelas mais diversas situações, seja o tempo cultivando uma decepção ou a desilusão de uma traição, que adquirem colorações sangrentas conforme os sentimentos nublam a razão.

Vanessa Nunes, a organizadora, introduz o leitor à complexidade do tema com o ótimo texto "Eu nunca serei uma mulher que aceita", misturando ficção com elementos reconhecíveis das manchetes diárias de violência contra a mulher, provoca uma reflexão ácida e profunda sobre formas de violência.

Em "Juntos para Sempre", o autor A. T. Sérgio mostra que é necessário ter cuidado antes de se jogar completamente em um novo relacionamento, pois por trás de sorrisos educados e olhares apaixonados podem jazer motivos ocultos e intenções sombrias. O conto brinca com a percepção do leitor com relação a quem é a verdadeira vítima, passando com suavidade de um início banal e comum para uma conclusão sangrenta que flerta perigosamente com o sobrenatural.

Artur Laizo, em "Dia dos namorados em Campos de Jordão", mergulha sua narrativa nas entranhas pútridas de um duradouro casamento moderno e revira a teia de mentiras e dissimulações que a compõe para criticar a realidade com um toque sarcástico e uma carícia arrepiante de humor negro.

"FFM" de Fabiano Soares explora os desgastes de um relacionamento pós-moderno, onde a convivência e a rotina transformaram o fogo avassalador da paixão em focos esparsos de um incêndio díficil de se começar. Para apimentar a relação um casal decide adicionar um terceiro elemento à equação, porém entre os gritos de prazer, surgem urros de ódio e depois gemidos de dor. Os fluídos que são trocados são mais rubros que o indicado.

Em "Rosa, o espinho da dor", Humberto Lima aborda um tema comum à realidade brasileira, cuja verossimilhança com historias reais chega a arrepiar. Um improvável casal de classes diferentes, um jovem rico e uma moça simples do interior, uma paixão que resulta em uma noite de amor e uma consequente gravidez, e por fim o abandono masculino. A sociedade é cruel com uma mãe solteira. Esta é uma história de vingança.

No claustrofóbico "Cantos escuros do afeto" de Hedjan C. S. a tensão presente nos diálogos é conduzida habilmente até um clímax impactante, que consegue arrancar arrepios do leitor com as sugestões do horror nas entrelinhas. Após o final de seu relacionamento, que ocorreu de modo traumático e mortal, uma moça visita o melhor amigo de seu (ex) namorado em busca de respostas.

A protagonista de "Incógnito" de Mhorgana Alessandra e Victória Manuela descobrirá da pior maneira que seu namorado não é quem ela pensava ser. O mistério da trama é efetivo na reflexão sobre a real possibilidade de se conhecer o íntimo do outro, mesmo convivendo diariamente com a pessoa. Após um brutal ataque homofóbico a um casal de amigos suas reflexões sobre dor, perda e solidão culminarão em uma conclusão traumática.

"Encontro mortal" de Michele Valle explora a inevitabilidade do amor e sua tragédia a partir da contato entre um ser sobrenatural e uma humana. A trama utiliza o fantástico para criticar as ações autodestrutivas daqueles que embarcam em um relacionamento fadado ao fracasso, a esperança na falsa sensação de que desta vez será diferente e a desolação do fim. 

(Des)Namorados alcança êxito ao unir o Dia dos Namorados a narrativas de horror e suspense, a diversidade de autores e estilos narrativos enriquece a  experiência da leitura e oferece uma variedade de contos, que mais do que simples entretenimento, funcionam como catalisadores de reflexões. São histórias abordam temas sensíveis e cuja discussão é importante, desde a violência à mulher, o abandono paterno, até a própria dinâmica das relações e questões como expectativas e desilusões. Uma leitura mais que recomendada.

  (Des)Namorados (2019) | Ficha Técnica 
   Organizadora: Vanessa Nunes
   AutoresA. T. Sérgio, Artur Laizo, Fabiano Soares et al.
   Editora: Independente
   Páginas: 106 páginas
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   Nota: ☠☠☠☠☠☠☠☠☠☠ (08/10 Caveiras)

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