O exército dos Estados Unidos descobriu um som desconhecido com efeitos estranhos à audição humana, acredita-se que sua origem seja em algum ponto do deserto africano, mas são poucos os detalhes disponíveis e as tropas enviadas para coletar mais informações jamais retornaram. Os soldados que de alguma maneira conseguiram encontrar o caminho de volta estavam tão desorientados que conseguiam apenas balbuciar coisas sem sentido. 

O som afeta instantaneamente quem o ouve, na verdade você só percebe que o está escutando quando já está experimentando seus efeitos, que incluem tonteira, vômitos e alterações de consciência. Porém seu efeito mais devastador é a inutilização de qualquer arma a seu alcance. Será este som a arma biológica definitiva ou a antítese de uma arma?

Quando terminei de ler Piano Vermelho fiquei alguns minutos encarando o vazio, tentando entender se tinha gostado ou não de sua história, é difícil categorizá-lo como um simples livro de terror ou ficção científica, Josh Malerman escreveu uma carta de amor à música, utilizando esses gêneros para explorar tanto seus aspectos benéficos, através da capacidade de unir pessoas diferentes, como os malefícios fictícios da sua utilização,  através de uma melodia sombria que provoca a obnubilação da mente. O resultado é um romance de horror "sensorial" que desafia o leitor a sentir a pulsação sombria que há por trás de suas linhas.

Piano Vermelho tem todos os elementos que fizeram de Caixa de Pássaros um sucesso, a narrativa é vertiginosa, desde o início o leitor é apresentado a um mistério que prende a atenção; o clima de suspense é claustrofóbico, a sensação de que sempre há algo a espreita é angustiante; o horror é associado à percepção de um dos cinco sentidos, que neste caso é a audição e a narrativa que se altera entre eventos do passado e do presente. 

Os problemas estão nas diferenças, em primeiro lugar achei o final sombrio e aberto de Caixa de Pássaros muito mais crível que o apresentado aqui, não sei se as críticas tiveram influência sobre o autor, mas o final de Piano Vermelho é muito forçado, criado exatamente para dar aquela "impressão de felicidade" que quem não gostou de Caixa Pássaros sentiu falta.Outro ponto fraco é a relação amorosa entre os protagonistas, a forma como isso foi desenvolvido é um tanto quanto bizarra, as coincidências forçadas mescladas com um toque de obsessão dão um tom artificial ao relacionamento. 

Como o autor opta por um estilo de escrita cinematográfico, com frases curtas e cenas visualmente impactantes, falta profundidade para explorar essas relações entre os personagens e até mesmo para desenvolve-los melhor, de modo que quase nenhuma morte consegue afetar o leitor de verdade. Apesar disso, após reler as páginas finais, cheguei a conclusão de que gostei do livro, o mistério e o suspense prometidos pela sinopse são entregues pelo autor, mas não com facilidade, acredito que cada leitor, a partir de suas próprias experiências, vai tirar um sentido diferente sobre a real origem do som.

Josh Malerman mostra em Piano Vermelho porque é um dos grandes nomes dessa nova geração de autores de terror, sua narrativa é divertida e imersiva, destaque para a construção de suas cenas de horror, como o relato do casal de velhinhos que vive isolado em meio ao deserto e enfrenta algo além da imaginação e a primeira aparição da criatura que deixa marcas de casco em meio às dunas. É bom saber que a editora Intrínseca está apostando em seu trabalho, tanto que já está confirmado para o segundo semestre o lançamento de sua novela Uma casa no fundo de um lago.

  Piano Vermelho (2017) | Ficha Técnica 
   Título original: Black Mad Wheel (2017)
   Autor: Josh Malerman
   Tradutor: Alexandre Raposo
   Editora: Intrínseca
   Páginas: 320 páginas
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   Nota: ☠☠☠☠☠☠☠☠☠☠ (7/10 Caveiras)