Para começar a falar sobre Desfiladeiro do Medo eu tenho que dar um aviso... Este livro é maravilhosamente erótico e depravado carregado de um horror destorcido que apenas a mente de Clive Barker poderia conceber. Então se a sua noção de puritanismo e  moralismo é alta então talvez seja melhor não continuar lendo essa resenha. E ah, não compre o livro porque o erotismo provavelmente irá condená-lo ao inferno.

Clive Barker com sua prodigiosa e assustadora imaginação criou mais uma história que irá te assombrar enquanto viver com suas imagens perturbadoras, 'Coldheart Canyon' traduzida para o português como O Desfiladeiro do Medo. No livro o autor nos apresenta a Hollywood moderna em toda sua glória e infâmia, um lugar onde a fama e a decadência estão separados por uma linha quase invisível tecida a base de mentiras e o culto extremo a imagem e aparência. Barker não faz rodeios e escava o lado mais podre e profundo das antigas (e novas) celebridades, suas ambições e perversões são analisadas de perto com a frieza e acidez típicas do escritor.

Coldheart Canyon guarda muitos segredos e nem todos são deste mundo. Eu não quero revelar nenhum aspecto da história, a sensação de ser surpreendido por Clive a cada linha é inesquecível e os horrores por ele retratados surgem de maneira tão súbita que é impossível desviar os olhos sem ter ao menos um vislumbre dessas aberrações, que são o suficiente para uma nova safra de pesadelos. O bom de ler Clive Barker é ir totalmente no escuro, com relação à história, ir tateando as paredes, procurando freneticamente pelo interruptor com medo das sombras que envolvem a escuridão... 

Porém quando a luz é acesa, uma certeza surge: Muitas vezes é melhor temer apenas a sombra e deixar o nosso cérebro supor que tipo de criatura tem aquela forma que ver a verdadeira face do horror. É isso que Clive faz, nos fornece a luz para caminharmos em um inferno cheio de monstruosidades. O Desfiladeiro do Medo segue a linha de horror clássica, com cenas assustadoras e um permanente estado de tensão, temperado com um clima de terror que se infiltra pelas linhas do livro e envolve o leitor como um nevoeiro sombrio. 

Ler Clive Barker é como adentrar outro mundo e neste livro isso é quase literal. A velha máxima do autor, usada em Livros de Sangue ainda funciona por aqui. Existem lugares que guardam o ódio e rancor de seus antigos moradores, a violência e a raiva grudam nas paredes passando a fazer parte da casa... Nesses lugares todo o mal reunido danifica a barreira que separa o mundo dos vivos e dos mortos criando assim uma fenda, uma espécie de estrada, por onde as almas dos mortos atravessam para o nosso mundo e que uma vez aberta não pode ser fechada.

Os personagens são extremamente bem construídos, seus medos e suas mentes são dissecados diante do leitor assim como o eterno cabo de guerra que ocorre dentro de cada um entre o bem e o mal. Clive possui uma sensibilidade em nos fazer questionar sobre o núcleo do ser humano, será que no mesmo local onde a bondade se forma o instinto assassino é criado? Da mesma fonte aonde vem o prazer de recebermos um obrigado nasce as mais nojentas perversões?

A sexualidade é algo que Clive Barker explora bastante em suas obras e é algo bastante forte em O Desfiladeiro do Medo, mas ao contrário de muitos ele não se retém ao excitante ou a divina união de dois corpos. Ele parte mais fundo, no amago animal do homem, onde amarras sociais não alcançam e a repulsa é fraca... O livro é tão quente que vai queimar seus dedos se não souber segurá-lo corretamente. Clive Barker é um escritor com uma excepcional habilidade, a de projetar em nossa mente imagens absolutamente bizarras através da palavra escrita fertilizando o solo na nossa imaginação por vários e vários anos para uma colheita espetacular de pesadelos horríveis. Leia se tiver estomago e coragem suficiente.

   
  O Desfiladeiro do Medo (2002) | Ficha Técnica 
   Título original: Coldheart Canyon (2001)
   Autor: Clive Barker
   Tradutor: Ruy Jungmann
   Editora: Bertrand Brasil
   Páginas: 700 páginas
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   Nota: ☠☠☠☠☠☠☠ (10/10 Caveiras)