Nosferatu é a tese de doutorado em horror de Joe Hill, se antes ele era considerado uma grande promessa do gênero, agora pode ser creditado como um dos maiores nomes da atualidade na literatura de terror, com um futuro gloriosamente sombrio e perturbador. Suas principais características são a descontração de sua narrativa que, assim como seu pai fez nos anos setenta, é um mosaico da cultura popular de sua época, além da exploração de temas atuais através de uma reinterpretação do horror com toques do gore, retirados dos anos oitenta. 

Stephen King em seus livros, através de pequenas menções subjetivas, criou um universo expandido de suas obras que se relacionam e se cruzam em um universo onde os monstros nunca morrem, coisas más acontecem com pessoas boas e onde o herói nem sempre consegue se sair vitorioso. Joe Hill, como uma espécie de brincadeira cria conexões com o universo de seu pai através de menções de lugares como Castle Rock, Shawshank e o Mundo Médio; personagens como Pennywise, além de comparar o trabalho de Manx com o True Knot, vilões de Doctor Sleep. Mais do que isso cria seu próprio universo tecendo de maneira mais elaborada e intrínseca a trama que une NOS4A2 com O Pacto e Estrada Da Noite. 

Há também ligação com a sua série em quadrinhos Locke & Key além da menção de dois livros que podem vir a ser publicados, cujos esboços principais estão formados na mente do autor: The Crooked Alley e Orphanhenge. Em comparação com seus livros anteriores NOS4A2 é gigantesco com mais de seiscentas páginas, mas o próprio autor revelou que o manuscrito passava das mil das quais mais de 100 eram apenas sobre Manx e sua relação de origem com a Terra do Natal, esse material todo foi cortado para surgir depois em forma de uma minissérie em quadrinhos chamada: Wraith: Welcome to Christmasland. Em suma NOS4A2 é uma grande trama que une o recém-criado universo de Joe Hill.

A história se baseia na premissa de que cada pensamento e fantasia são reais dentro da mente daquele que a criou. O que é a música senão o delírio de um artista expresso em notas musicais? Sua fantasia alucinatória tornada verdadeira através de um instrumento, que forma uma espécie de ponte entre a imaginação e realidade fazendo com que outras pessoas compartilhem sua criação tornando-a "experimentável e real". 

Mas isso é trazer seu mundo interior à tona e destilar sua paisagem interior a quem se interessar investigar, pois aquilo que saiu de sua cabeça é nada mais que um reflexo de quem você é, um prisma de sua alma. E se o contrário fosse possível? Ao invés de rasgar o frágil tecido da realidade trazendo para fora seus pensamentos, fosse possível levar coisas reais para o seu mundo de imaginação? Victoria McQueen consegue isso através de sua bicicleta, quando quer encontrar algo é só começar a pedalar que uma espécie de ponte se abre exatamente no lugar que aquela coisa ou alguém está. É o mesmo dom de Charles Talent Manx que consegue com seu carro chegar a um obscuro parque de diversões que existe em sua mente, A Terra do Natal onde as crianças são felizes para sempre.

Joe Hill teve extremo cuidado na criação de seus personagens, cada detalhe foi adicionado com um propósito e o resultado final são protagonistas extremamente humanos, é onde o horror reside, na crença de que todos são humanos e de o monstro não se esconde debaixo da cama, mas sim na escuridão do coração de cada um de nós. A maldade não é restrita aos vilões ao mesmo modo que a compaixão não é apenas um atributo de heróis, o autor navega pelas paisagens interiores dos leitores, criando cenas belas e assustadoras, tão aterrorizantes por serem reconhecíveis. 

   Nosferatu (2014) | Ficha Técnica 
   Título original: NOS4A2 (2013)
    Autor: Joe Hill
   Tradutora: Fernanda Abreu
   Editora: Arqueiro
   Páginas: 624 páginas
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   Nota: ☠☠☠☠☠☠☠☠☠☠ (10/10 Caveiras)