Resenha | Incubus de Ray Russell - Biblioteca do Terror

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2 de fevereiro de 2019

Resenha | Incubus de Ray Russell


Em diversas culturas ao redor do mundo existem lendas e relatos de demônios e espíritos que atacam seres humanos através do sexo, especificamente na religião católica essas criaturas são conhecidas como súcubos, personificações femininas que atacam homens, e íncubos, personificações masculinas que atacam mulheres, sendo definidos no Malleus Maleficarum, o guia oficial dos inquisidores contra os praticantes de heresias, como entidades demoníacas que tinham o costume de invadir o quarto de uma pessoa à noite forçando-a a praticar o ato sexual, numa experiência, conforme afirma J. Gordon Melton em A Enciclopédia dos Mortos-Vivos, que variava do extremo prazer ao terror absoluto.

As descrições do íncubo medieval foram herdadas das figuras dos sátiros e do próprio deus Pã grego, criaturas animalescas, com chifres e cascos fendidos e um exagerado órgão sexual. Em sociedades medievais onde a gravidez fora do casamento era tida como um pecado mortal, nada mais lógico que aproveitar o exacerbado misticismo religioso para atribuir a gravidez indesejada a um demônio, escapando do cruel julgamento social e familiar. Não é de se espantar que nessa época centenas de relatos de jovens atacadas à  noite surgiram, que em alguns casos eram utilizados como base para acusações de bruxaria. É nesse contexto que Ray Russel desenvolve Incubus, romance de terror publicado em 1976, sobre misteriosos ataques sexuais às mulheres de uma pequena cidade americana.

Ray Russell era um contista por excelência, embora sua obra mais conhecida seja o romance Sardonicus descrito por Stephen King como "talvez o melhor exemplo do gótico moderno jamais escrito", recebeu em 1991 o World Fantasy Award for Lifetime Achievement por suas contribuições ao gênero, em grande parte por seu trabalho como editor da revista Playboy, na década de 1950 até o final da década de 1970, responsável pela publicação de histórias na revista de autores como Richard Matheson, Ray Bradbury, Kurt Vonnegut, Robert Bloch e Charles Beaumont.

Incubus se enquadra naquele rol de publicações que surgiram após o sucesso de O Exorcista, tanto que sua capa é coroada pela frase: "Um pesadelo aterrorizante que supera as emoções de 'O Exorcista' e 'O Bebê de Rosemary' combinadas." A edição nacional da Novo Tempo cortou a última linha da frase presente na edição americana que é "Um romance de possessão sexual de Ray Russell." Dito isso, é incrível como o texto do autor envelheceu tão mal, ao mesmo tempo que sua narrativa traz uma visão progressista da sexualidade para época, é repleta de um subtexto machista que empesteia a obra e que obriga a trama a buscar soluções ridículas para o andamento da história. 

O livro é ambientado na pequena Galen, uma cidade litorânea da Califórnia com ares da Nova Inglaterra (a popularmente conhecida gambiarra, quando você precisa de uma cidade e clima diferentes juntos para que sua narrativa funcione), onde jovens estão sendo estupradas e mortas por um estranho. Há três personagens importantes que conduzem a trama: Julian Trask, um antropólogo que é especialista no sobrenatural e esoterismo, mas tem vergonha disso e passa grande parte da história enrolando sobre seus conhecimentos; Doc Jenkins, o médico racional, que mesmo com provas físicas que os ataques não poderiam ter sido feitos por um ser humano (lembra do íncubo bem-dotado?) insiste categoricamente em uma opinião falha que induz a polícia a uma sucessão de erros; e Tim Galen, descendente do clã fundador da cidade, com um sombrio passado familiar de bruxaria e cujo maior dom é aparecer sem motivo algum nas cenas importantes do livro.

Ray Russell escreve bem e tem um texto ágil, o livro se sustenta praticamente no mistério sobre qual é a verdadeira identidade do íncubo, mas sua insistência em não dar voz as personagens femininas, o que poderia ter evitado a maioria das mortes e em contrapartida acabado com o livro já em seu início, aliada as várias decisões erradas dos protagonistas, utilizadas para dar substância a narrativa, empobrecem a trama. Um exemplo é o esperado encontro entre Julian Trask e Doc Jenkins onde finalmente o sobrenatural seria abordado, construído e instigado por vários capítulos, tem uma conclusão idiota e anti-climática. Os dois começam a beber para tomar coragem e falar do assunto, mas depois que a conversa toma fôlego decidem parar, pois o álcool poderia nublar a consciência dos dois. E o que dizer do maravilhoso plano dos protagonistas de prender todas as mulheres da cidade em um único e apertado lugar, impossibilitando qualquer ajuda externa, enquanto cada um continua no conforto de seu lar e elas são atacadas?

Paralelo a narrativa dos ataques, há várias cenas de flashbacks, ligados a Tim Galen, que mostram uma mulher acusada de bruxaria na Idade Média sendo torturada. Com uma construção bastante gráfica, são extremamente explícitas para época e talvez as grandes responsáveis pela fama underground que o livro possui nos dias atuais, mas quando contextualizadas com o quadro geral da narrativa são insignificantes, tanto que o próprio autor as abandona depois de determinado ponto.

A impressão é de que Incubus é um conto que foi inflado para se tornar um romance, cheio de cenas desnecessárias e uma criatura que não consegue convencer como vilão e muito menos assustar, principalmente por conta das decisões dos protagonistas, que não parecem levar a sério a ameaça ou a morte das mulheres. O mistério da identidade do íncubo é o que direciona a leitura até as páginas finais e a conclusão, que pode ser chocante para os leitores mais incautos, é sem criatividade e reforça o preconceito do Malleus Maleficarum. Incubus está longe de ser um clássico, sua narrativa envelheceu mal e seu esquecimento é parte natural do processo de evolução literária, prova disso é Mulheres Perfeitas de Ira Levin, publicado quatro anos antes e que continua tão atual quanto na época.

Incubus | Ficha Técnica 
   Autor: Ray Russell
   Tradutor: Flávio Manso Vieira
   Editora: Novo Tempo
   Publicação: 1976
   Páginas: 269
   Compre: Estante Virtual
   Nota: ☠☠☠☠☠☠☠☠☠☠ (5/10 Caveiras)

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