Entrevista | Thomas Olde Heuvelt, autor de HEX - Biblioteca do Terror

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2 de abril de 2018

Entrevista | Thomas Olde Heuvelt, autor de HEX

O Biblioteca do Terror em parceria com a Darkside Books realizou uma entrevista com Thomas Olde Heuvelt, autor de HEX, um dos lançamentos mais aguardados da editora que finalmente chegou às livrarias esse mês. O autor holandês falou sobre suas principais influências e inspirações, revelou detalhes e curiosidades sobre sua obra, além de sua visita ao Brasil, marcada para junho. 

Biblioteca do Terror: Thomas primeiramente obrigado pela oportunidade da entrevista e seja bem vindo à Biblioteca do Terror. Os leitores brasileiros estão bastante ansiosos com a publicação de HEX, já ouvimos bastante sobre a obra, mas pouco de seu autor. Quem é Thomas Olde Heuvelt, em suas próprias palavras?

Thomas Olde Heuvelt: Obrigado por me receberem. “Biblioteca do Terror” soa muito bem, como uma biblioteca onde você pode se perder e passar dias morando lá com alguma coisa terrível escondida entre as prateleiras, até que você morre por puro medo e sofrimento.
Enfim, meu nome é Thomas Olde Heuvelt e sou um escritor de contos e romances da Holanda. Meu sobrenome vem do dialeto holandês antigo e quer dizer “Colina Velha”, mas na verdade eu sou bem jovem. Comecei bem jovem também. Meu primeiro romance foi publicado na minha cidade natal quando eu tinha dezoito anos. Agora, cinco livros depois, ganhei o Hugo Award por melhor conto na América (por uma história chamada “The Day the World Turned Upside Down”) e escrevi um romance muito aterrorizante que deu a volta ao mundo. HEX já foi vendido em 26 países e estou muito animado por agora estar disponível no Brasil também! Sim, é um romance de terror. O tipo de terror que te faz ficar acordado a noite e ir dormir com as luzes acesas. Recebo centenas de mensagens de leitores ao redor do mundo que me contam sobre o efeito que HEX teve neles. E eu, como um escritor de terror, fico muito feliz, é claro.

BdT: Em outras entrevistas você afirmou que Roald Dahl e Stephen King foram grandes influências para sua escrita. Quais outros autores ou livros do gênero você aponta como essenciais na sua formação como leitor/escritor?

TOH: Acredito que toda criança deve crescer com um contador de histórias por perto. Pra mim, meu tio foi meu contador de histórias. Ele costumava me contar histórias pra dormir sempre que eu ficava na casa dele. E ele me contou as melhores. Sem edições. Aos sete anos, ele me contou “As Bruxas” de Roald Dahl. Aos oito, “Drácula” de Bram Stoker. E ele não parou por aí. Toda vez que a gente ia pra floresta e passava por algum anel de fadas (tipo de cogumelo em círculo) no meio do caminho, ele dizia coisas como, as bruxas tinham dançado ali na noite anterior e, por isso, eu tinha que passar por ali com meus olhos fechados ou teria sete anos de azar. Eu acreditava nele. Eu acreditava em cada palavra que ele me contava. Me assustava, me deixava acordado a noite e me trazia pesadelos horríveis. 
Mas, ao mesmo tempo, eu amava cada minuto daquilo. Ele foi a pessoa que me influenciou a me tornar o contador de histórias que sou hoje. Mais tarde, comecei a ler livros adultos, li “O Cemitério” de Stephen King aos 11 e “It, A Coisa” aos 12, o que foi provavelmente um pouco cedo demais, só que eu fui fisgado desde então. Atualmente eu leio tudo que posso, desde histórias de terror e romances literários até realismo mágico e comédia. Meu livro favorito de todos os tempos é “As Aventuras de Pi” de Yann Martel. É tão rico e bem executado: a forma como ele te faz reconsiderar toda a história nas últimas dez páginas…

BdT: HEX foi bastante elogiado por reimaginar para os dias atuais um tema clássico da literatura de horror, uma história sobre bruxas e maldições, através de uma perspectiva moderna. De onde surgiu a inspiração para o tema? 

TOH: Desde que “As Bruxas” de Roald Dahl me traumatizou, eu quis escrever uma história sobre uma bruxa. Então há alguns anos atrás criei o conceito de uma cidade assombrada por uma mulher do século XVII condenada por bruxaria. Ela tem os olhos costurados, porque as pessoas acreditavam que ela lançava mau olhado. Mas ela está lá ainda hoje. Mostrei o conceito pra um amigo e ele me esculhambou. Com razão. Era entediante, sem graça e nada original. A gente começou a brincar com ele então. E se a bruxa não fosse essa aparição assustadora e sobrenatural, mas o bobo da cidade? E se os habitantes estão tão acostumados com a presença dela, que ao invés de sentirem medo, eles penduram uma toalha na sua cabeça quando ela aparece no meio da sala pela milionésima vez? De repente, comecei a me empolgar. Esse toque fazia a história vibrar. E aí você começa a ficar mais prático, imagine se isso se passasse na sua cidade nos dias atuais, como as pessoas iriam lidar com isso? Todo mundo teria um aplicativo de celular, é claro - o HEXApp - para relatar aparições e rastreá-la. E eles fariam de tudo para impedir que forasteiros a vissem. 
Eles a cobririam com as coisas mais loucas, como um galpão de ferramentas e arbustos. ou um coral de senhorinhas quando ela aparece em público. Só que ao mesmo tempo - e é aí que nós voltamos para o horror clássico - no fundo, eles ainda têm muito medo dela. Eles têm medo do desconhecido que ela representa. Eles têm medo do dia em que ela pode vir a abrir os olhos. E eles temem o que pode acontecer com eles caso não obedeçam às regras da cidade. E sejamos honestos, a maldição dessa mulher, Katherine van Wyler, é bem aterrorizante. Se você ouvi-la sussurrar, faz com que você se mate. O mesmo acontece se você deixar a cidade por muito tempo. Então os habitantes tem todos os motivos para terem medo. 

BdT: O Brasil é um país que tem um rico folclore nacional acerca de seres sobrenaturais, nossa cultura teve grande influência de elementos europeus e africanos, de modo que o tema de HEX é bastante familiar aos brasileiros. Uma das nossas histórias mais populares é sobre a Pisadeira, uma mulher com uma aparência assustadora que ataca suas vítimas à noite durante o sono, pisando em seu peito com seus dedos secos e compridos com unhas sujas e amareladas. A vítima fica paralisada, consciente de todo o horror, mas sem poder se mover. Existe alguma história folclórica holandesa do gênero que teve influência na criação da bruxa de HEX?
 
TOH: Eu amei! Que história incrível! É um filme de Hollywood esperando pra acontecer. Eu sou louco por folclore e histórias de terror do mundo inteiro, então sim, amo esse tipo de coisa. Talvez porque tenhamos tão pouco disso na minha terra natal. A Holanda é muito Calvinista por natureza, e assim também é sua literatura. Nós somos provavelmente o povo mais pé no chão do mundo. Quando uma pessoa sã vê uma mulher desfigurada do século XVII surgir no canto da sala, ela corre e grita. Quando um holandês vê uma mulher desfigurada do século XVII surgir no canto da sala, ele suspira, pendura um pano de prato na cara dela e vai ler o jornal. Nós não temos o costume de contar histórias de terror, ou de lidar com o sobrenatural. No entanto, eu incorporei esse jeito prático e pé no chão dos holandeses para lidar com o sobrenatural nos personagens do livro. Dessa forma, eu meio que continuei honrando minhas raízes. 

BdT: A caça às bruxas começou na Europa em meados do século XV e teve grande impacto nas histórias que eram transmitidas oralmente na época. Por exemplo, nos contos antigos de cavaleiros de armaduras temos as bruxas e feiticeiras aparecendo como mulheres sedutoras ou velhas sábias. A partir da Inquisição a figura dessas histórias muda completamente, as bruxas tornam-se canibais, com um paladar especial para crianças, e ganham uma aparência assustadora. Qual é a sua visão sobre essa mudança de perspectiva e como ela influenciou na criação da bruxa de HEX, Katherine van Wyler, com seus olhos e boca costurados?

TOH: Baseei muito elementos do livro na caça às bruxas medieval, principalmente nas superstições que a cercava. Porque as mudanças que as pessoas notavam nas mulheres e que levavam a população a acusá-las de bruxaria,  eram todas baseadas em superstições (em sua maioria religiosas). Francamente, não acho que a sociedade está tão diferente hoje em dia. Claro, temos nossas tecnologias modernas e a ciência já eliminou muitas das superstições que costumávamos temer, mas introduziu um elemento de afastamento ou uma carga na população ou até mesmo na sociedade como um todo, e as pessoas tendem a retornar aos seus instintos primordiais e instintivos. Você só precisa disso para a sociedade desmoronar. Essa é a parte verdadeiramente assustadora de HEX, penso eu: o espelho que ergue para o leitor, que faz com que ele se pergunte como agiria nessa situação. Todos gostamos de pensar que agiríamos de maneira diferente, que seríamos racionais… mas a conclusão ameaçadora é a de que não podemos ter certeza de que realmente iríamos. 

BdT: Tanto a ambientação, em uma cidadezinha americana, como a personificação de uma bruxa do século XVII demandaram muita pesquisa de sua parte. Como foi esse processo de pesquisa e qual foi a curiosidade mais bizarra e assustadora que você encontrou?

TOH: Descobri que as superstições do povo holandês dos séculos XVI e XVII não eram tão diferentes daquelas que saltaram o Atlântico e foram para as Américas. Faz sentido - elas tinham as mesmas raízes. E, sim, havia algumas histórias aterrorizantes lá. Tipo como em épocas de doença, as crianças, de repente, começavam a “brincar de funeral”. Colocavam uma delas em um caixão e carregavam para fora da cidade para representar os rituais funerários. Isso era visto como um mau presságio - eles acreditavam que a criança que brincava disso seria o primeiro a morrer num futuro próximo. Ou a história sobre os comedores de mantos… durante A Peste, abriam-se as covas coletivas para enterrar novos corpos e, na maioria das vezes, eles descobriam que os cadáveres antigos, já enterrados, tinham “comido” o manto que cobria seus rostos e tinham sangue ao redor de suas bocas. Hoje sabemos que é porque corpos em decomposição às vezes tossem sangue e as bactérias que saem da boca que acabam por comer o manto… mas naquela época eles acreditavam que os mortos tinham se levantado de seus túmulos para se alimentar dos vivos.
Cara, você precisa ver meu histórico de busca do Google. Quando se escreve o tipo de coisa que eu escrevo, você desenterra as coisas mais loucas.

BdT: O que você achou do projeto gráfico do seu livro aqui no Brasil, feito pela DarkSide Books? 

TOH: Eu amei! É diferente de tudo que eu já vi antes. A DarkSide sempre surpreende com um trabalho artístico maravilhoso. Gostaria de saber ler em português, porque aí eu teria todos os livros deles na minha estante, só porque eles são tão incríveis. Eles sempre trazem algo novo e original. Eu amei a projeção moderna do olho da bruxa se abrindo. É fascinante e tem relação com o toque moderno do conto da bruxa.

BdT: Mais uma vez obrigado pela entrevista e para finalizar você pode nos contar mais sobre seus projetos futuros? Tem planos de conhecer o Brasil? 

TOH: Realmente, mal posso esperar pra ouvir dos leitores brasileiros se eles gostaram do livro, se ficaram arrepiados ou se tiveram pesadelos. Mais uma vez, estou amando o alvoroço que a DarkSide está criando para o livro. E o melhor de tudo: vou visitar e autografar livros aí em Junho! Estarei em São Paulo, Porto Alegre e Rio de Janeiro. Então venha dizer oi e ter sua edição de HEX autografada. Sobre novos projetos: estou atualmente terminando meu próximo romance. É um romance sobre possessão. Eu sempre quis escrever um desses, mas com um toque especial chave. O que já está batido em romances sobre possessão é o aspecto religioso - sempre tem um demônio ou um espírito maligno que possui uma pessoa e um padre vem para exorcizá-lo. Já conhecemos essa história. 
Eu, no meu tempo livre, sou um alpinista, e sempre que estou nas montanhas, sinto como se elas fossem criaturas elevadas. Como se tivessem uma alma. Não sou uma pessoa muito espiritual, mas outros alpinistas já vieram com histórias parecidas. E cada montanha tem uma alma muito específica e diferente que é única dela. Elas são lugares de poder. Então minha parte escritor pensou, “Não seria legal se tivesse esse cara, um alpinista que sofreu um acidente terrível e desceu, possuído pelo espírito da montanha? Ter essa força da natureza-malvada revoltada dentro dele? Essa é a premissa do novo livro. Vai ser empolgante e vai ser aterrorizante, isso eu prometo.

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