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Resenha: Fome de Tibor Moricz

Sinopse:
Quando a civilização se acabar, nada mais restará a não ser a urgência da saciedade física. A fome predominará acima de todas as necessidades humanas. Sentimentos e conflitos internos nada serão além de escombros, aço retorcido e ossos limpos. Passará a existir uma nova miríade de convenções humanísticas, religiosas e de sobrevivência, com alicerces edificados sobre a carne, o sangue.  

Opinião:
  Um dos pontos mais importantes para o nascimento das civilizações foi o desenvolvimento da agricultura, a partir do momento em que a evolução das técnicas de plantio possibilitaram a existência de produção excedente, o homem pode concentrar seu pensamento em outras tarefas além do serviço braçal, como por exemplo desenvolver um sistema de crenças, escrita e até mesmo novas tecnologias que facilitassem a produção agropecuária. Atualmente estamos no ápice da nossa sociedade, não precisamos mais caçar a nossa comida, e se você tiver dinheiro o suficiente para isso, pode encontrar qualquer tipo de alimento em qualquer época do ano no mercado da esquina. Eis que surge a questão: e se esse sistema entrasse em colapso? E se por alguma catástrofe, a humanidade já não tivesse mais acesso fácil a comida? 

   A literatura apocalíptica já explorou essa linha de pensamento. René Barjavél em 1943 com Devastação ou A Volta da Natureza mostra como a sociedade moderna se fragmentaria com a falta de um simples elemento: a eletricidade, o destaque é para sua crítica à dependência de alimentos industrializados do homem, porém em seu romance havia a natureza para saciar a fome da humanidade. Foi John Cristopher em 1956 com Chung-li: A Agonia do Verde que decidiu explorar os efeitos da fome mais a fundo, através de um vírus que ataca e destrói toda a forma de vida vegetal, mostra o caos e desordem que advém de um desastre em grande escala que abalaria o equilíbrio da cadeia alimentar. Chung-li tem grande êxito em narrar o esfarelamento da sociedade, mas sua narrativa se detém ao apocalipse em si. 

   Cormac McCarthy em 2006 com A Estrada cria uma visão sombria de um ecoapocalipse, chafurdando nos destroços de um mundo outrora familiar, grupos de pessoas lutam pelos restos apodrecidos de uma civilização que dá seus últimos suspiros em meio a desolação estéril. Apesar do tom desesperador da narrativa, a humanidade ainda possuía resquícios da antiga sociedade, a percepção da finitude desses víveres era um monstro que espreitava no horizonte e que querendo ou não seria encarado em futuro próximo, momento este não abordado pelo livro. De modo que eu ainda tinha esse questionamento. E se a humanidade chegasse a um ponto que todos os estoques de comida acabassem? Eis que encontrei minhas respostas em Fome de Tibor Moricz. 

    O futuro apresentado por Fome ultrapassa a definição de sombrio, e por isso não é o tipo de livro indicado para qualquer tipo de leitor, é preciso ter estômago forte para saborear o que há em suas páginas e mesmo assim a indigestão é certa. Anos após uma catástrofe que ceifou a vida de milhões pessoas, dizimou a fauna e flora e transformou rios em túmulos radioativos, o que restou da humanidade se arrasta na sujeira sobrevivendo em meio a selvageria animal. O canibalismo é a dieta base. Tibor Moricz constrói seu mundo devastado através de pequenos contos repletos de sangue, violência e críticas a sociedade que se conectam para formar um mosaico da crueldade humana.

    A narrativa de Fome é ágil e afiada, as cenas são construídas com perfeição, refletindo a sujeira e insanidade das estórias e os personagens conseguem realmente convencer o leitor de seu desespero e desolação, a linha que separa o mocinho do vilão é praticamente inexistente e talvez isso seja o que incomode a maioria dos leitores, Tibor Moricz mergulha suas mãos sem nenhum pudor na parte mais escura da nossa alma, para mostrar que  depois que todas as máscaras de civilidade caem, sobra apenas o instinto de sobrevivência em seu estado mais primal. E o mais assustador é que nossa literatura de testemunho está repleta de pessoas reais que passaram por situações limites e tiveram que enfrentar os mesmos dilemas morais. Seja perdido na imensidão do mar ou preso em uma montanha inóspita, a fome sempre vence.

 Nota: ☠☠☠☠☠☠☠☠☠☠ (10/10 Caveiras)

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