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16 de julho de 2017

Resenha: Mestre das Chamas de Joe Hill


Sinopse:
   Ninguém sabe exatamente como nem onde começou. Uma pandemia global de combustão espontânea está se espalhando como rastilho de pólvora, e nenhuma pessoa está a salvo. Todos os infectados apresentam marcas pretas e douradas na pele e a qualquer momento podem irromper em chamas. Nos Estados Unidos, uma cidade após outra cai em desgraça. O país está praticamente em ruínas, as autoridades parecem tão atônitas e confusas quanto a população e nada é capaz de controlar o surto. Em meio a esse filme de terror, a enfermeira Harper Grayson é abandonada pelo marido quando começa a apresentar os sintomas da doença e precisa fazer de tudo para proteger a si mesma e ao filho que espera. Agora, a única pessoa que poderá salvá-la é o Bombeiro – um misterioso estranho capaz de controlar as chamas e que caminha pelas ruas como um anjo da vingança.

Opinião:
    Existem duas maneiras de se ler Mestre das Chamas de Joe Hill: a primeira é como um leitor comum, na qual você encontrará uma fábula sombria sobre o fim da humanidade; a outra é como um fã aficionado de terror, que reconhecendo cada referência em meio à narrativa, tanto ao próprio universo criado por  Joe Hill como a aproximação ao universo de Stephen King, embarca em uma experiência alucinante que vai além das páginas e eleva a definição da palavra "leitura" à um outro nível. Foi apenas em Nosferatu que Hill começou a amarrar suas obras em um universo comum: a bizarra Terra do Natal de Charlie Manx, a estrada da noite de Judas Coyne e a casa da árvore da mente de Ignatius Perrish existem na mesma realidade que o divertido e inesquecível Circo do Pennywise. Mas como Mestre das Chamas se encaixa nesse universo em expansão? Simples, com uma única palavra, Joe Hill conecta a história à Torre Negra de Stephen King e define completamento o contexto e importância do livro em seu universo.

   Mestre das Chamas tem muitas homenagens à autores que influenciariam Joe Hill, desde Ray Bradbury, John Wyndham, J. K. Rowling até, é claro, Stephen King, em especial seu clássico apocalíptico, A Dança da Morte. Algumas referências são mais explícitas como o caso do garotinho surdo Nick Storey tão carismático quando o Nick Andros de Stephen King; Harold Cross, personagem que tem problemas para se inserir na comunidade de sobreviventes em Mestre das Chamas é similar física e mentalmente à Harold Lauder de Dança da Morte, além de ambos manterem um diário de suas tribulações; outro paralelo óbvio são as protagonistas grávidas, Frannie Goldsmith e Harper Grayson, que enfrentam a desesperadora incerteza de não saber se seus filhos nascerão resistentes à doença que destruiu toda a população. Enquanto outras são mais implícitas e estragaria a sua surpresa se eu as revelasse aqui, cito como exemplo o caso da conexão com A Torre Negra, o personagem que é um Iluminado e ainda a relação similar entre os portadores do vírus Escama do Dragão e os infectados de Celular. 

   É bom ressaltar que as semelhanças entre Mestre das Chamas e Dança da Morte se limitam apenas às referências, Joe Hill criou uma história de apocalipse diferente, ao invés de explorar o fim do mundo em toda sua complexidade como King fez, prefere trazer uma visão mais particular, o que poderíamos chamar de "apocalipse pessoal." O fim da sociedade não é relatado através de cenas cinematográficas com monumentos famosos sendo destruídos ou com multidões histéricas em meio ao caos, mas sim por meio das pequenas mudanças na nossa rotina diária que um evento real acarretaria. Como por exemplo, os itens básicos de consumo começando a desaparecer das prateleiras de supermercados ou a mudança sutil no comportamento das pessoas em suas relações com medo da infecção.

  A Escama do Dragão é um vírus que tomou o mundo de assalto em poucos meses, os infectados desenvolvem estranhas marcas pela pele e no estágio avançado entram em combustão espontânea. Ou seja, ao contrário de outras doenças nas quais você pode se isolar no interior de uma floresta na esperança de não ser contaminado, aqui não há como fugir. Ou você é infectado pela doença ou corre o risco de morrer em um dos milhões de pequenos e grandes incêndios que são iniciados por pessoas que pegaram fogo. Cidades inteiras pereceram em meio a um inferno de chamas. As pessoas começam a entrar em pânico, doentes que inicialmente eram empilhados em hospitais, passam a ser caçados e exterminados por patrulhas armadas. É neste mundo que a protagonista, Harper Grayson, se vê grávida e infectada pela escama do dragão, abandonada por seu marido sua última esperança jaz na enigmática figura do Bombeiro e sua capacidade de controlar as chamas...

   O apocalipse de Joe Hill é crível por ser extremamente atual, desde os vídeos que viralizam com pessoas infectadas se irrompendo em chamas até as teorias absurdas que ganham dezenas de adeptos conforme a sociedade se esfarela. O que marcaria mais o fim do mundo para nós que encontrar a página principal do Google desativada com o sombrio dizer 'que sorte nós tínhamos' ao invés do habitual 'estou com sorte'? O livro marca a evolução de Joe Hill como escritor, sua narrativa é profunda e cativante, você atravessa à noite devorando suas páginas, enquanto seus personagens são complexos e carismáticos. Mestre das Chamas recebe calorosamente o leitor para uma viagem ardente em meio à destruição da humanidade, o horror nasce a partir do momento que o instinto bestial de sobrevivência do homem, liberto das amarras sociais, emerge à tona e mostra que não há vírus ou bactéria mais mortal que a própria crueldade humana.

Nota: ☠☠☠☠☠☠☠☠☠☠ (10/10 Caveiras)

4 comentários :

  1. De mais, começando meu livro, a resenha só aumentou minha expectativa !

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  2. Joe Hill não enrola, nas primeiras páginas ele já mostra para que veio, o cara é uma realidade, um excelente escritor !

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  3. Quase comprei hoje... mas na livraria estava por R$ 60,00... na Amazon tá R$ 38,00. Mas vou esperar um pouco e comprar no Kindle.

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  4. Excelente resenha. Bem, minha opinião: é notável que Joe Hill está melhorando a cada livro. Mas também é notável que anda a copiar certos defeitos do pai, como uma certa encheção de linguiça em algumas partes, a criação de personagens caretas e sem graça (Harper), para não dizer tolas. E são livros que não assustam, como os do pai nessa última fase de sua vida, quando muito, prendem a atenção até que o leitor o conclua. Lá pelo meio a gente já sabe o que esperar de "terror", já sabe o que causa a tal escama, já até deduz como vai terminar o livro. Falta ousadia em Joe Hill, como anda faltando em SK, ambos os autores têm se tornado absolutamente triviais. Em alguns momentos do livro dá vontade de pular páginas até ver "se algo acontece". Em alguns momentos do livro, é impossível não achar graça do drama das pessoas soltando fumaça, mas não porque o autor fez piada, mas por ser ridículo mesmo. Isso ocorre porque o autor não consegue descrever toda dor, todo pavor, de uma pessoa sentir que |"entra em ebulição por dentro de si mesma". Não sei se sou eu que anda mau humorado, mas eu não daria dez caveiras não.

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