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24 de dezembro de 2016

Resenha: Trilogia Bill Hodges - Achados e Perdidos / Último Turno de Stephen King

      Repetindo o trabalho cuidadoso do ano passado, a Editora Suma de Letras investiu bastante na obra de Stephen King em 2016, tivemos o relançamento de Cujo, um dos livros clássicos mais pedidos pelos leitores,  que estava em estado de raridade no Brasil desde a década de oitenta, em uma bela edição especial de capa dura, sendo o primeiro volume da nova coleção Biblioteca Stephen King. Porém o lançamento mais ambicioso foi a aguardada trilogia policial, protagonizada pelo policial aposentado Bill Hodges, formada por Mr. Mercedes, Achados e Perdidos e O Último Turno. Lá fora a trilogia foi publicada ao longo de três anos, enquanto por aqui tivemos lançamentos trimestrais, sendo que o último livro foi publicado com a diferença de poucos meses do lançamento original nos Estados Unidos. Eu já falei sobre Mr. Mercedes anteriormente, você pode ler a resenha aqui, o foco desta análise é nos dois últimos livros da trilogia.

Achados e Perdidos
   O principal problema de Achados e Perdidos é que ele é um livro extremamente descartável dentro da trilogia e não tem importância alguma para a história principal, ao invés de ser uma obra de ligação entre Mr. Mercedes e O Último Turno, importante para o desenvolvimento da trilogia, é um livro que não faz a menor diferença se você ler ou não. Desde que eu vi a notícia de que em Achados e Perdidos o vilão de Mr. Mercedes não iria aparecer, sabendo de sua importância no contexto geral, fiquei receoso sobre o que encontraria nesta história, seria difícil para Stephen King criar outro antagonista interessante em tão pouco tempo, mas então a primeira metade do livro me desarmou completamente. Uma estória sobre o vício da literatura, tanto seu aspecto benigno, como maligno, protagonizada por Morris Bellamy e Peter Saubers, escrita com a paixão de um professor e amante de literatura diretamente para um leitor que ama a literatura tanto quanto. E é aí que jaz o segredo,  Achados e Perdidos não é um livro sobre Bill Hodges, mas sim sobre Bellamy e Saubers.
    O "famoso" detetive só aparece lá pela página 100 e sua história é um balde de água fria no que estava acontecendo até então, todo o suspense gerado pela antecipação do clímax é brutalmente assassinado por uma estória chata e sem importância alguma. A sensação é tão estranha que fui verificar o nome do autor na capa outra vez, para ter certeza de que era apenas Stephen King escrevendo e não mais uma daquelas obras de James Patterson e fulano de tal desconhecido. O pior é que há toda uma "conspiração do destino" para que Hodges acabe se envolvendo com o caso de Saubers, o que torna todo o enredo bizarramente inverossímil para quem é fã da própria verossimilhança do universo de Stephen King. Se um grupo de crianças conseguiu enfrentar uma criatura de outra dimensão em It: A Coisa, se um garoto atravessou territórios hostis para salvar um reino em O Talismã e um casal de jovens enfrentou um carro assassino em Christine, porque diabos um adolescente, protagonista de um livro de  Stephen King, sendo este ou não uma obra sobrenatural, não daria conta de um simples vilão humano?
   Não é crível a maneira como Hodges se envolve com o caso e não é crível o modo como eles descobrem o que está acontecendo, a tecnologia facilitou muito as coisas em livros policiais, mas um mistério que há mais de trinta anos está em aberto, sem nenhuma conclusão, ser solucionado por uma simples busca no google através de um celular é decepcionante. Chega a ser desleixado. Como fã de Stephen King me senti decepcionado com o rumo que tomou Achados e Perdidos, principalmente depois de ser surpreendido positivamente com a primeira parte. O gosto que fica na boca após a leitura é o mesmo que experimentar sua comida favorita e sentir que um dos ingredientes estava estragado, sem falar que como fã de suspense policial me senti insultado pelas resoluções rápidas e toscas. A primeira parte da estória é sensacional, o King de sempre. Mas é só Hodges entrar em ação que a qualidade cai vertiginosamente. 

Nota: ☠☠☠☠☠☠☠☠☠☠ (5/10 Caveiras)

Último Turno
   O Último Turno é a prova do por quê Stephen King é relembrado por seus vilões e poucas vezes por seus protagonistas, o retorno de Brady Hartsfield, o "diabólico Assassino do Mercedes" é o sopro pútrido de ação que a trilogia precisava, mas ao invés de trazer alguma novidade para o enredo,  a impressão que é passada  é a de que estamos lendo a segunda parte de Mr. Mercedes, ou seja mais do mesmo. A trilogia como um todo ficaria muito melhor se King simplesmente tivesse esquecido essa ideia de três livros e condensado o primeiro e o último num volume só, um livro de seiscentas páginas nos mesmos moldes de Novembro de 63 ou Saco de Ossos. Na primeira metade da trama fica evidente a "encheção de linguiça" é só próximo ao final que o suspense verte das páginas e consegue prender o leitor.
   A adição do sobrenatural é um elemento destoante de tudo o que havia sido mostrado até então, existem casos em que essa mistura dentro do romance policial funciona, um exemplo é Coração Satânico de William Hjorstberg, o sobrenatural no livro é um elemento a mais durante a investigação, mas aqui King fracassa, por que o usa como uma muleta para dar andamento a sua narrativa. As páginas que mostram o desenvolvimento dos poderes de Brady suscitam aquela sensação esmagadora de dejà vu em quem já leu Zona Morta, agora eu entendo a fala de King criticando os autores de suspense que só reescrevem a mesma estória com nova roupagem. Em comparação com autores policiais contemporâneos de primeira linha, como Lee Child, Jeffery Deaver e Jo Nesbo, a trama de O Último Turno parece até infantil, não consegue passar a sensação de perigo iminente e nem convence o leitor de que o vilão é uma verdadeira ameaça.
  O livro consegue se salvar na reta final, quando o que deveria ter acontecido logo no primeiro livro, o confronto entre Brady e Bill Hodges, finalmente ocorre. Stephen King não decepciona na questão entretenimento, mas fica muito aquém de suas habilidades, se você nunca leu King é provável que goste do que encontrará nas linhas da trilogia, afinal é uma leitura fácil que não oferece nenhum desafio, mas se você é um leitor constante, acredito que sentirá falta da força do velho King. Há muitos anos não encontrava um livro do King em que após ler a última linha, ao invés de tomar fôlego por causa do clímax final, suspirei agradecido por finalmente acabar a leitura. Como disse anteriormente a trilogia toda ficaria muito melhor em livro só.

Nota: ☠☠☠☠☠☠☠☠☠☠ (7/10 Caveiras)

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