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13 de agosto de 2016

Resenha: O Passa-Paredes de Marcel Aymé


Sinopse:
   O Passa-Paredes compõe-se de dez contos publicados durante a ocupação alemã na Segunda Guerra Mundial. Numa época em que o escritor, para sobreviver, apelava não poucas vezes para a escamoteação da realidade, Aymé deu largas ao pendor para o fantástico e o alegórico, ironizando a crescente degradação do homem, a decadência de costumes e da sociedade francesa de seu tempo. Num sentido restrito, poderia ser chamado de puritano e conservador. Porém, se atentarmos bem verificaremos que seu puritanismo nada mais é do que a tentativa de manter-se íntegro diante de um mundo, de uma civilização que parecia desabar diante das panzerdivisionen alemãs.

Opinião:
    O Passa-Paredes de Marcel Aymé é mais um clássico esquecido em meio aos grandes nomes da Coleção Mestres do Horror e da Fantasia da Editora Francisco Alves, publicado originalmente no auge da ocupação nazista da França, é um livro que se imiscui no fantástico e no bizarro para tecer severas críticas à guerra, aos regimes políticos e o mais importante, à mentalidade das pessoas da época. É recheado de histórias surpreendentes, a maioria dos dez contos que compõe esta coletânea são reconhecidos tanto por sua qualidade crítica quanto por sua inventividade. Marcel Aymé, apesar de ser pouco conhecido mundialmente, é considerado um dos tesouros nacionais em seu país de origem, a França. Quem visita Paris pode encontrar um monumento em sua homenagem, na Praça Marcel-Aymé, no bairro Montmartre, há uma grande estátua do Passa-Paredes. 
    A estória que abre a coletânea é o conto que dá título ao livro, o primeiro contato com a escrita de Marcel Aymé, embora seu estilo seja bastante ágil, não é uma leitura rápida, parágrafos grandes  e extremamente detalhados requerem  atenção redobrada do leitor, mais do que contar uma história, o texto serve como espaço para o autor expor e discutir suas ideias, de modo que as sublinhas estão carregadas de críticas. Uma característica importante de Aymé é o tom irônico e tragicômico que imprime em seus contos, o ingrediente especial que os torna divertidos e palatavelmente agradáveis. Monsieur Dutilleul é O Passa-Paredes, um homem comum de meia idade que subitamente se vê portador de um dom fascinante: o de atravessar paredes. Seu primeiro reflexo é utilizar tal poder para fazer gozações com seus desafetos, porém quando o assombro passa, sua mente é iluminada pelo horizonte de infintas riquezas que este dom pode lhe proporcionar. É quando decide entrar no mundo do crime que suas trágicas aventuras se iniciam.
   As Sabines é um conto extremamente divertido que narra as aventuras de uma jovem que  possuía a incrível habilidade de se multiplicar a seu bel-prazer. Imagine se você pudesse criar uma cópia exata de você mesmo para fazer todas aquelas atividades chatas e tediosas que todos enfrentamos diariamente. O tema central do conto é a identidade, a questão que Aymé propõe é sobre o que nos define: nossas experiências ou nosso íntimo? As Sabines se utiliza desta premissa fantástica para tecer uma trama inocente que cresce em um ritmo apocalíptico. Seu final é bom demais!
  O Cupom do Tempo é o meu favorito, em épocas de guerra o racionamento de comida é essencial para a sobrevivência de soldados e civis, uma das formas básicas de controle é através de cupons mensais de cotas, dependendo de sua ocupação e posição social essa cota seria maior ou menor. Mas imagine que comida não fosse o problema, mas sim o tempo! Os cupons não fariam mais referência a rações, mas a dias de vida. Mas como isso funcionaria? Aí é que reside a genialidade do conto! Pouco depois da metade há uma grande reviravolta na trama e a história fica ainda mais interessante.
   O Decreto é sobre importância que os decretos dos governantes têm na vida das pessoas comuns. Uma guerra consome mais do que recursos de um país, consome seu povo, mas como dar fim a uma contenda no qual nenhum dos dois lados quer dar o braço a torcer? Simples, e se o mundo todo avançasse anos no futuro até um momento no qual a guerra já tivesse acabado? Para isso não seria preciso nada tão tecnológico como uma máquina do tempo, mas sim um simples decreto. O Provérbio é uma crítica tão carregada de ironia aos comandantes militares que chega a ser indecente de explícita. No conto um pai decide ensinar a lição de casa a seu filho, mesmo não sabendo as respostas, insiste que aquilo que diz é o certo, afinal ele nunca está errado. Esses dois contos  prezam mais pela discussão teórica e crítica que propriamente pela evolução da história, de modo que se você não conhece ou tem interesse no contexto da época, não vai se sentir animado com os diálogos. 
  Lenda Poldava é uma estória carregada de humor negro ácido, deste conto em diante o autor coloca a fantasia em segundo plano para que o realismo fantástico emerja, como um artifício para dar mais verossimilhança às suas críticas. No conto uma senhora vive  baseada em sua fé com uma retidão impecável, ao mesmo tempo que seu sobrinho dedica sua vida a perversões e atos indecentes, imagine sua surpresa ao morrer e chegar às portas do céu e descobrir-se barrada na fila, enquanto seu sobrinho, que morreu na guerra, conquistou o direito de entrar sem nenhum julgamento. Uma ótima crítica a meritocracia.
  O Cobrador de Esposas é um conto que adquire tons de fábula ao mesclar uma crítica direta aos representantes civis a sua ganância em sempre querer tirar o máximo de seu público. Gauthier-Lenoir é um cobrador  de impostos que mesmo em tempos magros de guerra executa seu trabalho com estoicismo impecável, chegando ao cúmulo de enviar um aviso de atraso de pagamento pelo correio para si próprio. Essa ocupação lhe traz a rejeição de seus iguais e o ambiente já sufocante de conflito aos poucos destrói os últimos fios de sanidade de sua frágil mente. As Botas de Sete Léguas reconta clássica história de O Pequeno Polegar nos tempos de guerra. Enquanto O Oficial de Justiça narra a história de um homem inescrupuloso que ao morrer e ser julgado por seus feitos na Terra descobre que seu destino é o Inferno, seu pedido de uma nova chance para fazer as coisas certas desta vez é atendido. Mais uma vez o humor de Marcel Aymé torna a conclusão inesquecível. E por fim, Esperando é um conto que se passa numa fila no qual os personagens narram suas desventuras na grande guerra, que durou de 1939-1972.
   Marcel Aymé tem um estilo próprio de narração, que a princípio causa uma sensação de estranhamento, parágrafos grandes e descritivos com poucos diálogos não perfazem uma  leitura fácil ou rápida, mas conseguem ser efetivos nas suas exposições de ideias. O autor utiliza muito bem a ficção para tecer críticas a  Segunda Guerra Mundial e o papel desempenhado pelo franceses dentro da mesma. Se você gosta de uma leitura desafiante que entretenha e ao mesmo tempo faça pensar, O Passa-Paredes é um prato cheio. 

Nota: ☠☠☠☠☠☠☠☠☠(9/10 Caveiras)

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