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14 de fevereiro de 2016

Resenha: Carniceiro Mefítico de Jean Thallis


Sinopse:
   Os repentinos sequestros em Colniza, norte do Mato Grosso, cobriram a cidade com uma mortalha de horror. Pedro faz parte de uma das muitas famílias que vivem em assentamentos com produção de café, apesar de jovem, possuí filha e como todos, também está amedrontado, temendo que sua filha seja o décimo sétimo rapto. Mas a tristeza de ver Bia raptada, sua primogênita, será apenas o prelúdio para a mais sórdida imersão na animalidade humana. Seu débil esforço na tentativa de resgatá-la correndo atrás daquele demônio, o levará para o emaranhado da floresta amazônica, onde horrores mais tétricos que a morte o rondarão no sonho e em vigília.

Opinião:
    O folclore brasileiro é rico em sua manifestação cultural, de norte a sul do país existem lendas e mitos regionalistas que são inspirados em crenças indígenas, há uma grande variação no teor desses relatos, parte disto se deve pela nossa grande extensão territorial, mas a principal barreira é a cultura da oralidade das tribos indígenas, nenhuma delas desenvolveu a escrita de modo que as lendas foram passadas no boca a boca de geração a geração. Esse forma de transmissão de informações ocasiona todo tipo de modificação, a maior delas é evidenciada pelo choque cultural advindo da interferência da cultura europeia, através dos jesuítas portugueses. Um exemplo disso é a lenda da Iara, a versão conhecida atualmente é a de uma índia de cabelos negros e olhos verdes que seduz homens para as profundezas das águas como uma espécie de sereia, mas há uma versão mais antiga que faz alusão a uma entidade antropofágica, chamada de Ipupiara, um monstro aquático absolutamente arrepiante. Mas o que isso tem a ver com Carniceiro Mefítico? Simples, Jean Thallis utiliza a figura do Curupira como vilão em sua narrativa, mas não a visão romanceada do menino travesso que utiliza a deformação de seus pés para enganar aqueles que invadem as matas, e sim a criatura que habita as histórias indígenas, de um tempo anterior ao dos europeus, repletas de violência, raptos de crianças e abusos sexuais. 
   O desbravamento do interior do Brasil é um processo que tem suas raízes fixas em meados do século XVII através das expedições dos bandeirantes, porém foi apenas no século XX que o povoamento dessas regiões se intensificou, através de incentivos do governo, que tencionava garantir a soberania nacional a partir da ocupação, famílias inteiras "ganhavam" pedaços de terra para se tornarem criadores de animais ou donos de campos de plantações. Colniza, uma pequena cidade do interior mato-grossense, é uma das muitas comunidades que surgiram deste modo, seus plácidos habitantes são homens comuns que buscaram o refúgio do campo para sustentar suas famílias. Porém a sensação luxuriosa de bucolismo é destruída quando as crianças do assentamento começam a desaparecer, os sequestros são tão repentinos e envoltos em mistério que nenhum responsável é apontado e acredita-se que os tentáculos do sobrenatural estejam por trás dos desaparecimentos. 
  Pedro é um jovem agricultor que está tão temeroso com essa onda de sequestros quanto os outros pais, sua filha pequena tem e mesma idade das vítimas e seu coração transforma-se em gelo perante a mera sugestão que possa perdê-la, suas noites são passadas em vigília, atrás de portas e janelas fortemente reforçadas, para evitar arrombamentos. Se depender de suas forças o sequestrador jamais chegará a um metro de sua filha. Mas o mal sempre está à espreita e um pequeno deslize de atenção é tudo o que o monstro precisa para atacar. Pedro ouve os gritos de sua filha e o extremo horror se apossa de sua alma quando vê a criatura que a segura. Um homem de um branco cadavérico, com cabelos laranja espetados  misturados com terra, olhos completamente negros como a noite, um sorriso pontiagudo que reflete as intenções mais psicóticas e o que lhe permite identificar a criatura, os pés virados para trás. O monstro dispara para a floresta com seu prêmio entre os braços e Pedro vai atrás. Tem início então uma perseguição pelo interior da floresta amazônica que revelará os segredos mais pútridos e obscuros que jazem por trás de toda a beleza do verde. 
   Carniceiro Mefítico é um livro pesado, extremamente vívido e explícito em suas descrições de violência, necrofilia e outros temas tão bizarros que embrulham a mente só de lembrar, a leitura é uma experiência torturante e angustiante ao mesmo tempo que instigante e prazerosa, é como ser amarrado a uma mesa de cirurgia e ter seus órgãos internos arrancados por um psicopata tendo a dor como única anestesia. Diferente de outros escritores do gênero, Jean Thallis não convida o leitor para um passeio no escuro por uma casa assombrada ou cemitério à noite, na verdade sequestra o leitor para um tour de force em abatedouro humano em plena luz do dia. Não recomendo o livro para pessoas sensíveis e que se chocam com facilidade, mesmo com minhas cicatrizes de leitor de "combates" anteriores me senti desconfortável durante a leitura, não foram poucas as vezes que tive que desviar os olhos para digerir uma cena absolutamente doentia ou deixar o livro de lado por sentir meus dedos pegajosos com a quantidade de sangue que há nas páginas. 
  A narrativa de Jean Thallis é simples e visceral, seu estilo remete a Clive Barker em Livros de Sangue, mas sua coragem vai além ao explorar temas e sensações que mesmo Barker evitou. Este é o segundo livro do autor,  precedido por Lapso Esquizofrênico, e foi publicado de modo independente, se mesmo o terror nacional tem pouco espaço nas editoras o subgênero gore é totalmente ignorado, por isso é tão importante apoiar os nomes brasileiros que se lançam na cruzada de publicar suas visões malditas. Jean Thallis ainda faz algo mais admirável ao disponibilizar Lapso Esquizofrênico e Carniceiro Mefítico para download gratuito em seu site (clique no nome dos livros para ir direto para as páginas), no qual também é possível encontrar vários contos de sua autoria. Carniceiro Mefítico não se propõe exatamente a assustar o leitor, embora algumas passagens consigam, o foco é no choque da exploração carnal do lado mais escuro da alma humana. É um livro que te surpreenderá se tiver estomago e coragem suficiente para chegar até suas páginas finais.  

Nota: ☠☠☠☠☠☠☠☠☠☠ (10/10 Caveiras) 

6 comentários :

  1. Fiquei com vontade de ler depois do que vc escreveu! Até hoje nunca li nenhum livro que me desse tanta angustia como vc descreve (e olha que leio mt mt livro de terror...)
    Fiquei curioso, já está na minha lista!

    Abraço

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  2. Rapá, se for metade dessa resenha já vale a pena.

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  3. Mato Grosso é pertinho de onde nasci e fui criada, mas tenho até receio de ler esse livro do jeito que tenho medinho.

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  4. Fiquei super interessado ainda mais pela parte que você descreve o mesmo como ultrapassando Clive Barker na linguagem visceral.

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  5. também fiquei super interessado... alguém sabe dizer onde possa comprar esse livro?

    aliás, se alguém tiver desfiladeiro do medo para vender e contos de horror do século XIX, me avisem..

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  6. Leonardo Lopes, entre em contato comigo via Facebook ou adquira o livro pelo site: http://www.editoramadreperola.com/carniceiromefitico.html, o pessoal da uma mão na divulgação do meu trabalho.

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