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20 de dezembro de 2015

Resenha: Amém de Arthur Chrispin


Sinopse:
   Amém descreve o trabalho de um grupo de policiais da Delegacia de Homicídios, liderados pela delegada Luzia, que investiga crimes de caráter religioso cometidos por um serial killer. O livro passa por escolas de samba e funk proibidão. Umbanda e cristianismo. Mansões e barracos. Pela promiscuidade entre a polícia e a bandidagem. Pela pompa dos políticos corruptos e pelas gírias do tráfico.

Opinião:
   O amanhecer de um famoso bairro do Rio de Janeiro adquire tons carmins de violência quando um cadáver é encontrado amarrado em um poste de iluminação pública. O horror não  está apenas na expressão de medo imortalizada no rosto da vítima, mas sim na aparente causa da morte: o corpo jaz cravejado de flechas. A pose é uma óbvia referência ao santo católico, São Sebastião, o mártir que se negou a abdicar de sua fé e foi condenado a execução por meio de flechas.  Também não é nenhuma coincidência que aquele dia em especial seja o dia escolhido pela Igreja para celebrar honrarias ao referido santo. Como sempre a mídia transforma a cena do crime em um espetáculo macabro e se desdobra para conseguir o ângulo mais sangrento para deleite de seus mórbidos expectadores, especialistas são convocados para dar seu parecer, hipóteses nascem e morrem na fração de segundo de um apertar do botão de controle remoto.  Logo o medo e a euforia da cobertura do crime infectam a população. Todos querem respostas, um culpado, segurança. O ano de eleição de aproxima, os governantes precisam mostrar serviço ou não manterão seus cargos. É preciso escolher os melhores para esta investigação.
   A corrupção não é apenas um mal que corrói o coração político nacional, seus tentáculos pegajosos de sedução estão em todas as esferas de poder e isso incluí até mesmo a força de segurança, a polícia. Mas ainda existem bastiões de esperança, pequena flores de retidão que crescem no solo pútrido do sistema público, e negam-se a deixar corromper por toda a sujeira que os cerca. Um pequeno grupo da Delegacia de Homicídios é reconhecido pela sua honestidade, alcunhados o "bonde do crediário" são mais que colegas de corporação, são uma família. E é em suas mãos que fica a investigação do estranho assassinato. Se não bastasse a pressão política para a resolução do caso, surgem fontes externas de preocupação, a vítima é irmão do chefe do tráfico de um dos mais importantes morros cariocas, que inicia uma caçada própria em busca de vingança. Mas é quando surge outro crime ligado a referências religiosas, que a grande revelação ocorre. Há um serial killer agindo nas ruas do coração carioca e ninguém está livre de ser a próxima vítima. 
   Arthur Chrispin se imiscui pelas páginas policiais para criar um livro instigante, que mescla a tensão de uma estória de serial killer com um cenário autenticamente brasileiro, fugindo  do modelo americanizado de suspense policial ao se utilizar da realidade nacional para criar um romance completamente factível. A narrativa é bastante ágil, as cenas de violência e suas respectivas descrições são bem estruturadas, assim como a construção dos personagens, suas relações e suas evoluções ao longo do texto. Em poucas páginas o leitor é inserido na estória e instigado a perseguir o assassino ao lado do protagonista, desvendando as pistas deixadas pelo assassino e pelo próprio autor nas entrelinhas, que o guiam através de um labirinto de deduções. Porém a identidade do do assassino não me surpreendeu, mesmo com todo o jogo de sombras e ilusões criado pelo autor, antes da metade do livro eu já sabia quem era,  mas não conhecia o por que. Mesmo assim fui totalmente surpreendido pela brutalidade poética do final. Chrispin dosa a violência com precisão cirúrgica o livro todo, mas nas páginas finais há uma overdose inebriante de sensações que é quase impossível descrever, simplesmente fiquei de queixo caído após ler a linha final.  Amém é o tipo de livro nacional feito em medida para ser exportado, não traz apenas uma boa estória, mas também exalta a cultura nacional, como por exemplo, a dualidade das religiões católica e umbandista e as ótimas cenas que acontecem em pleno carnaval carioca. O resultado é um livro nacional acima da média, com um bom desenvolvimento e um final arrepiante.

Nota: ☠☠☠☠☠☠☠☠☠ (9/10 Caveiras) 

2 comentários :

  1. Olá Rafa, esse livro tem um quê de macabro!
    Resenha como sempre ótima, me fez conhecer autor e livro, e claro, me deu uma vontade louca de lê-lo. Temática interessante e aparentemente bem construída.

    Abraços,

    Leitor Noturno e Coisas de Um Leitor

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  2. Caraca, preciso ler este urgente!


    "Você pode tirar o garoto do fogo do inferno, mas não o fogo do inferno do garoto" (Desespero)

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