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5 de novembro de 2015

Resenha: Revival de Stephen King


Sinopse:
   Em uma cidadezinha na Nova Inglaterra, mais de meio século atrás, uma sombra recai sobre um menino que brinca com seus soldadinhos de plástico no quintal. Jamie Morton olha para o alto e vê a figura impressionante do novo pastor. O reverendo Charles Jacobs, junto com a bela esposa e o filho, chegam para reacender a fé local. Homens e meninos, mulheres e garotas, todos ficam encantados pela família perfeita e os sermões contagiantes. Jamie e o reverendo passam a compartilhar um elo ainda mais forte, baseado em uma obsessão secreta. Até que uma desgraça atinge Jacobs e o faz ser banido da cidade.
   Décadas depois, Jamie carrega seus próprios demônios. Integrante de uma banda que vive na estrada, ele leva uma vida nômade no mais puro estilo sexo, drogas e rock and roll, fugindo da própria tragédia familiar. Agora, com trinta e poucos anos, viciado em heroína, perdido, desesperado, Jamie reencontra o antigo pastor. O elo que os unia se transforma em um pacto que assustaria até o diabo, com sérias consequências para os dois, e Jamie percebe que “reviver” pode adquirir vários significados.

                           O que há por trás do véu da morte
  Stephen King quando terminou de escrever Revival disse em suas redes sociais que era um dos livros mais assustadores que já havia escrito e que não queria mais pensar na estória. A promessa de um romance gótico que mesclasse a atmosfera cósmica de H. P. Lovecraft com a premissa de reavivamento de Mary Shelley em Frankenstein, foi o suficiente deixar os leitores constantes salivando na expectativa de mais um clássico do mestre do terror. Agora a pergunta de um milhão de dólares é, essa expectativa é saciada? Sim e não. Sim porque o final é um dos mais esmagadores e pessimistas de Stephen King, nem mesmo Richard Bachman em seus momentos mais insanos conseguiria uma conclusão tão filhadamãe quanto esta, que nos presenteia/amaldiçoa com um vislumbre do que há atrás do véu da morte. E não, porque o caminho a se percorrer para chegar até lá é bastante tortuoso, talvez uma das narrativas mais arrastadas de seus livros. A impressão é que a estória começou como um conto homenageando Shelley e após o término King decidiu narrar toda a gênese e trajetória dos personagens até aquele grandioso e profano ápice. Não que isso seja ruim, eu adorei o livro, até porque as descrições do mestre conseguem fazer de uma pequena ida ao supermercado  algo fantástico, mas se você esperava, como eu, uma trama cheia de sustos,  como O Iluminado ou Cemitério, vai se decepcionar. Não espere um mergulho no horror, o sobrenatural é adicionado gota a gota em Revival, tão lento que causa momentos de angústia, mas concentrado o suficiente para arrepiar ao longo das páginas com pequenos choques até o encontro final com a velha fagulha divina. 
   Revival é uma estória sobre fé, não apenas a crença religiosa, mas a fé em si próprio. O livro difere das outras obras do King pelo seu tom pessimista, a falta daquela atmosfera de esperança que diz: mesmo que tudo esteja indo mal e que pareça não haver nenhuma saída está tudo bem, há um poder maior que olha por nós e nos protege. Revival é polêmico por desconstruir esse sentimento e sugerir algo tão assustador que a nossa própria mente evita pensar: que nossa existência é vazia, o que nos espera do outro lado da vida é diferente de tudo o que podemos conceber. O inferno é um paraíso perto do King sugere em Revival. Qualquer obra que aborde a religião como tema central é sempre muito criticada, uma das cenas mais marcantes do livro é quando o Reverendo Charles Jacobs renega sua fé diante da congregação, em um sermão inesquecível. Isso faz com que Revival não seja indicado para iniciantes em Stephen King e,  se você leu menos de dez livros dele acredite é um iniciante,  é difícil imaginar que o mesmo autor que escreveu um épico monstruoso como Dança da Morte, no qual os protagonistas são guiados por forças opostas e liderados por figuras quase religiosas, escreva um livro no qual o protagonista é tão avesso à ideia de religião. Mas é a perda de sua fé na humanidade o mais estarrecedor. 
  A estória é composta pelo relato de Jamie Morton, que assim como os protagonistas dos contos de Lovecraft analisa sua vida revelando eventos marcantes e importantes até a invasão do sobrenatural em sua existência. E em sua história tudo está conectado ao Reverendo Charles Jacobs e seus encontros e desencontros regidos pelo destino ao longo dos anos. Na sua infância um trágico acidente faz com que Jacobs perda sua fé e no processo de externar sua consternação com o divino acaba destruindo também suas crenças. O Reverendo tinha uma particularidade estranha, um conhecimento em energia elétrica que ultrapassa o natural e alcançava as raias do milagroso, suas criações mecânicas funcionavam com o que chamava de energia secreta e podiam curar pessoas de doenças tidas como  incuráveis pela medicina.  O ônus de seu tratamento está nos efeitos colaterais, quando se mexe com as ondas cerebrais humanas pode-se acessar recônditos que não deveriam ser revelados, lugares no cérebro que possuem acesso a outras realidades cujo simples vislumbre desconstrói a teia de sanidade humana. Aqueles que são "curados" acabam desenvolvendo paranoias e neuroses que se revelam mais complexas e assustadoras do que a primeira vista supõe.  Não há vilões ou mocinhos em Revival, excetuando é claro a macabra aparição final, os personagens de King são complexos, ninguém é inteiramente bom ou mau, suas motivações são formadas por sentimentos e experiências críveis, fazendo o leitor questionar a validade dos argumentos e empaticamente se colocar naquela situação. 
   Revival emperra um pouco na narrativa, apesar de gostar das descrições de King e entender o efeito que esse desenvolvimento e a abordagem explicativa têm para o final, não consegui me conectar com o texto tão profundamente quanto em livros como Sob a Redoma e Novembro de 63. O início e o final conseguiram escravizar minha atenção por páginas e mais páginas, mas o texto de ligação entre eles não empolgou. É como estar em um carrinho em uma montanha russa subindo os trilhos em direção a tão desejada queda vertiginosa, e quando se alcança o topo daquela seção de trilhos descobre-se que ainda há mais para subir e subir, o que faz a excitação esfriar... Mas quando a queda acontece meu amigo, ela te deixa atordoado e sem reação. Revival tem uma daquelas conclusões que quando você termina a leitura, relê para ter certeza de que aquilo realmente está acontecendo, a banalidade das descrições do horror e das mortes é tão esmagadora que, após fechar o livro com todo o cuidado com medo de que algo escape pelas páginas, você se pega olhando em direção ao nada por vários minutos e digerindo a ideia que o final passa. Se você é fã de Stephen King essa será uma leitura deliciosa cheia de referências a seu universo, não é uma de suas melhores obras mas está na lista dos que devem ser lidos, mas se ainda não o  conhece escolha outro livro e tente outra vez. 

Nota: ☠☠☠☠☠☠☠☠☠(9/10 Caveiras)

9 comentários :

  1. Olá!
    Adorei a sua resenha. Sou fã de Stephen King mas a sinopse de Revival não me chamou a atenção. Gosto mais de suas narrativas estilo Doutor Sono ou Novembro de 63 e pela sua resenha Revival não é assim. Com certeza lerei, mas é uma leitura que pode aguardar um pouquinho.
    Bjs

    EntreLinhas Fantásticas

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  2. As magníficas últimas dezenas de páginas compensam o restante do livro lento. Um dos melhores finais dentre os livros que li do King até agora em minha opinião.

    bomlivro1811.blogspot.com.br

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  3. Excelente narrativa do mestre King. Rafa se garantiu na resenha. Recomendado para todos que gostam de uma boa leitura.

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  4. Apesar da enrolação que sempre o King faz, achei espetacular o começo e o final. Quem gosta de Frankenstein e de Lovecraft com certeza vai adorar.

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  5. Gostei muito do livro, mas não senti medo algum no final. isso me decepcionou um pouco, já que todos dizem ser assustador.

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  6. Olá, Rafa!
    Bom, sou um desses leitores iniciantes de King, mas num certo sábado do último Fevereiro, ao entrar numa livraria após sair da aula de teatro, fui chamado atenção pelo livro, o abri e li muitas páginas sem nem mesmo notar que eu estava em pé em frente a prateleira. Claro, vim aqui pois tinha certeza que haveria uma resenha, e confesso que fiquei com medo de cansar com a narrativa, mas vou tentar mesmo assim.
    Ansioso.

    gabryelfellipeealgo.blogspot.com

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  7. Sou iniciante, mas não achei que a leitura me prejudicou, muito pelo contrário me fascinou e o final me perturba até hoje. Eu sempre vejo por uma perspectiva esses "enrolamentos" que o King coloca durante seus livros, então não afeta em mim a questão de angústia ou cansaço do livro.
    Gostei da sua resenha, pois tem muitas pessoas que só fazem um resuminho e digam "adorei o livro, recomendo", então eu penso "ta, legal que adorou, mas pq adorou o livro?".
    Revival é um ótimo livro para analisar muitas questões (quem fizer um doutorado se baseando em Frankenstein, Lovecraft e Revival se garante doutor).
    Continue assim com suas resenhas que lerei mais.

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  8. Quando comecei a ler realmente não me liguei, muito com o estilo de lovecraft fora o Vermis Mysteriis ja estar indicando alguma coisa, mas do meio pro final e basicamente este estilo com aquela energia abrindo portal pra uma outra dimensão com criaturas ancestrais gigantescas e muito legal, por isso eu adoro Stephen King você consegue reconhecer em seus livros a sua influencia literária, os livros clássicos que eu tanto gosto de ler, sem esquecer também que tem referencias a Frankenstein de Mary Shelley.

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  9. A resenha é muito boa, porém, curti bastante o desenrolar da história, o avançar da idade e a humanidade das personagens, enfim, as tragédias humanas frequentemente implicam em transformações profundas naqueles que as vivem. As questões de fé, das religiões... O sermão terrível é absolutamente real, o primeiro beijo, as cenas na cabana, a cura do irmão, as bandas, a música, os reencontros, os eventos pós curas, as histórias e tragédias familiares, as coisas do cotidiano ao longo de 5,10,20,30,50 anos até o desenlace antológico do nó criado pela narrativa, seguido do epílogo envolto nas consequências e desesperança na psique de Jamie.

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