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29 de setembro de 2015

Resenha: A Echarpe de Robert Bloch


“Os livros que Bloch escreveu nos anos 50 – A Echarpe, The Deadbeat e Psicose – tiveram uma influência fundamental no curso da literatura norte-americana.”  Stephen King

Opinião:
  Robert Bloch escreveu A Echarpe em 1947, numa época em que o suspense policial passava por grandes mudanças na estruturação de seus personagens, os leitores cansados de protagonistas heroicos que sempre conseguiam desvendar os mistérios e capturar o vilão, o que realmente queriam eram estórias que explorassem o lado obscuro da psique humana e o submundo do crime em todos seus detalhes tétricos e ferais. Surgia então uma nova onda de livros  protagonizados por narradores não confiáveis, estórias contadas através da ótica demente e distorcida de psicopatas e assassinos que tinham uma visão de mundo completamente doentia. Obras como O Beijo da Morte de Ira Levin, autor de O bebê de Rosemary e O Assassino em Mim de Jim Thompson ao lado de A Echarpe foram o estopim para esse novo subgênero que criou grandes clássicos modernos como Psicose e Hannibal. 
  Antes de Norman Bates houve Daniel Morley. Em A Echarpe Bloch se imiscui pela primeira vez no conceito da obsessão pela figura materna, ao mesmo tempo em que desenvolve uma análise visceral da psicopatia envolta pelo fetiche e aversão ao sexo oposto e os resultados funestos que tal combinação induz. Dan Morley é um homem marcado por traumas da infância, sua mãe era uma tirana que execrava qualquer comportamento sexual que apresentava, humilhações e torturas psicológicas eram tão comuns que a ideia do sexo como sendo algo impuro acabou sendo impressa com fogo em sua mente. Seu período escolar foi marcado por rejeições de garotas de sua idade agravadas com chacotas sobre sua sexualidade, tudo poderia ter sido diferente se não fosse por alguém especial: a Srta. Frazier, a primeira mulher a enxergá-lo como homem. Seu primeiro relacionamento foi com a figura maternal de sua professora. Foi ela quem lhe deu de presente a echarpe marrom.
   Dan Morley cresceu e aprendeu. Aprendeu a esconder seus instintos, a mascará-los sob uma perfeita fachada de sanidade, a sociedade não entenderia seus pensamentos, a sociedade é impura. Sua válvula de escape é um caderninho preto onde escreve sobre seus sentimentos mais profundos, segredos sobre coisas dolorosas de serem lembradas, mas que não devem ser esquecidas para que a impureza não invada seu ser. O desejo de Dan é ser escritor, seu profundo ódio das mulheres lhe deu a capacidade de entender a essência que as forma, de modo que não lhe é estranho moldar sua personalidade de acordo com que suas parceiras desejam. Mas no fim todas acabam conhecendo a echarpe. Dan Morley tem um sonho, publicar um livro, e para realizá-lo vai colocar um maquiavélico plano em prática.
  A Echarpe é um horror psicológico bastante surpreendente, a narração em primeira pessoa é um tour de force pela mente insana do protagonista, através de suas lembranças sombrias e sua percepção alterada da realidade. Robert Bloch constrói um texto vertiginoso, o leitor não percebe o momento em que é fisgado pela loucura do livro até que sua mente seja literalmente rasgada nas páginas finais, o clima pesado da incursão por uma mente apodrecida pela loucura é entrecortado por tiradas inteligentes de um humor refinado, as vezes alcançando um patamar macabro, que torna a leitura  leve, mas não o suficiente para que você se sinta confortável. A tradução brasileira foi feita a partir da republicação de 1966, cuja trama foi reescrita após o sucesso de Psicose, então se você adorou ficar imerso na demência de Normam Bates vai achar a loucura de Dan Morley extremamente aprazível.  

Nota: ☠☠☠☠☠☠☠☠☠☠ (10/10 Caveiras)

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