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26 de abril de 2015

Resenha: Escuridão Total Sem Estrelas de Stephen King



“Contos que fazem mais do que jus à qualidade literária desse autor prolífico. Instigantes? Sim. Brutais? Nem queira saber.” The New York Times

“Reviravoltas sombrias guiam os quatro contos, que mostram como um talentoso contador de histórias pode fazer um livro inquietante e impossível de largar.” Publishers Weekly

“King oferece quatro olhares que vão direto ao ponto ao mostrar os limites da ganância, da vingança e do autoengano.” Booklist


Sinopse:

   Na ausência da luz, o mundo assume formas sombrias, distorcidas, tenebrosas. Em Escuridão total sem estrelas os crimes parecem inevitáveis; as punições, insuportáveis; as cumplicidades, misteriosas. 


Opinião:
  A escuridão é a mãe de todas as maldades, em seus domínios sombrios as regras sociais se dissolvem em furor animal que desconhece limites, seu abraço gelado não reconhece índole, protege tanto a vítima desolada em seu esconderijo como o assassino cruel em sua espreita. Muitos a temem e tentam lutar contra ela através de luzes artificiais, mas o que não entendem é que muitas vezes ela é uma benção, às vezes é melhor ignorar o que se esconde nas sombras que ter sua sanidade confrontada com um horror inominável. A alma humana é descrita como uma dualidade em que duas forças estão em eterno cabo de guerra para assumir o controle de nossas ações, o bem é representado pela luz que ilumina nossa bondade e bons desejos, o mal é personificado pela escuridão que esconde o lado mais pútrido no nosso coração, nublando nossa vergonha. Stephen King escreve sobre o lado escuro da alma humana, onde nem o manto das estrelas brilhantes da consciência consegue iluminar, aquele pequeno lugar onde jaz aprisionado o animal que há dentro de cada homem. Escuridão Total Sem Estrelas é aquele momento em que Deus fecha os olhos para as ações do homem. 
    Stephen King oferece a visão de quatro corações consumidos por dores e tristezas que ultrapassam as páginas para se derramar nos leitores, a vingança é um dos pilares que estruturam essas histórias, mas nada as define melhor os laços entre elas que os erros cometidos na busca pela felicidade, as escolhas ínfimas que transformam profundamente nossa realidade. O monstro não é um ser sobrenatural que surge das sombras para matar e saciar sua fome, é mil vez pior, é o homem que tem a consciência da maldade que seus atos causarão ao próximo, mas mesmo assim os perpetua. O formato do livro segue a mesmo proposto por Quatro Estações e Depois da Meia-Noite, quatro novelas longas que possuem um mesmo tema em comum, são elas 1922, Gigante do Volante, Extensão Justa e Um Bom Casamento
   Escuridão Total sem Estrelas começa com 1922, uma história onde a vingança pode vir dos lugares menos prováveis e através dos agentes mais cruéis. Um casal possui uma divergência com relação às terras em que moram, a esposa quer viver na cidade e sentir a multidão ao seu redor, abrir uma pequena loja e tocar a vida em frente, o marido quer continuar a vida no campo, acostumado a calmaria que os bucólicos campos de plantação lhe causam, quer continuar com as colheitas anuais. No meio desta guerra fria está o filho, cujo único propósito é manter seus amigos e ficar perto da garota por quem é apaixonado, porém seu futuro será irremediavelmente alterado quando um de seus pais decidir tomar medidas mais drásticas para resolver o conflito. 
  A inspiração de Stephen King para 1922 surgiu através de leitura da obra de não ficção Wisconsin Death Trip de Michael Lesy, um livro extremamente perturbador que reúne fotografias do séc. XIX que retratam crimes, doenças mentais e o ambiente claustrofóbico da América rural da virada do século. Recheado de fotos post-mortem, dentre as mais tocantes a de bebês em pequenos caixões. Há também um pouco de H. P. Lovecraft no texto, principalmente com influências do conto "Os Ratos na Parede".
  Gigante no Volante é a história que vem a seguir e é uma daquelas que tiram o leitor de seu lugar de conforto para transportá-lo para a psique da protagonista, não é à toa que é difícil encontrar uma posição confortável para ler, as páginas são carregadas de tensão e as escolhas morais que norteiam a trama nos envolvem como um nevoeiro pesado de sussurros que forçam a pensar, não há limites para a brutalidade humana. Uma famosa escritora de romances policiais é convidada para realizar uma palestra em uma biblioteca pública, no caminho de volta, seguindo o conselho da organizadora do evento, ela decide pegar um atalho que lhe poupará um trecho de rodovia mas passa por um lugar praticamente isolado e com pouco movimento. O tipo de estrada em que você espera encontrar o Motel Bates, mas não é Normam quem a encontra, é alguém muito pior, o Gigante do Volante. A inspiração para a história surgiu quando King viu um caminhoneiro se oferecendo para ajudar uma mulher a trocar o pneu de seu carro em uma parada de estrada. A crueldade que sua mente imaginou deu origem a essa novela. 
 Stephen King se utilizou de suas experiências pessoais novamente para escrever Extensão Justa, em uma área próxima a cerca do aeroporto sempre há vários vendedores de beira de estrada com suas pequenas barracas vendendo praticamente tudo o que a humanidade poderia produzir. Seu vendedor favorito é O Cara da Bola de Golfe, sempre que a temporada desse esporte acabava ele percorria os campos recolhendo as bolas perdidas, para depois fazer um bom negócio por um preço justo. A história é pequena e qualquer revelação poderia estragar a surpresa do enredo, pode-se notar a influência de Richard Matheson através do seu conto A Caixa. Ambos são parecidos e assustadores. 
  Um Bom Casamento foi a história que mais gostei, é o tipo de narrativa que planta aquela semente da dúvida em nossa cabeça, mesmo vivendo anos ao lado de alguém é impossível ter certeza da índole da pessoa e muito menos saber o que se passa na cabeça da própria. A história mostra um casal que tem sua relação confrontada por um segredo que o marido escondia por 27 anos, não um segredo qualquer mas algo tão assustador e horrível que faria um Cenobita sorrir de prazer. O protagonista é tipo de vilão que desfere um soco na face do leitor e o desafia a continuar, não contente com a perseverança do mesmo, o estomago torna-se seu alvo com uma saraivada de golpes que te deixarão tonto. Stephen King é mestre em criar antagonistas interessantes que ultrapassam nossas concepções de vilões e ficam para sempre impressos na memória. Não vou falar a inspiração para o conto senão acabo entregando uma grande surpresa, mas você pode encontrá-la assim como todas as outras no posfácio do autor que sempre contém as minucias de seu processo criativo. 
   Escuridão Total Sem Estrelas é mais uma incursão de Stephen King ao lado escuro da alma humana onde vicejam os monstros e nascem aberrações, um limbo onde a consciência, culpa e o bom senso jazem crucificados pela sede de vingança e pelo horror. Mudando um pouco da frase do próprio autor pode-se definir perfeitamente a obra, este desumano cria monstros humanos. 


Nota: ☠☠☠☠☠☠☠☠☠☠ (10/10 Caveiras)

5 comentários :

  1. Os quatro contos achei muito bons, e meu preferido é Extensão justa, pois achei muito criativo.

    bomlivro1811.blogspot.com.br

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  2. Cara, suas resenhas são ótimas. Parabéns. Tô ansioso por ler este. No momento tô lendo Duma Key e achando o máximo. Abraços!

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  3. Excelente resenha. Ainda não pude "degustar" esse livro de King, mas quando ele decide usar seu "processador de palavras" de uma maneira visceral, o resultado não pode ser outro, a não ser, perturbador.

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  4. Difícil escolha. Minhas duas favoritas Extensão justa e O gigante do volante. TUDOOO!!!

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  5. Gostei da resenha! Muito bem escrita. Realmente é excelente esse livro. Meu conto favorito foi extensão justa. Curti o sadismo por trás da história! Se tiver afim, corre lá no meu blog (comecei agora), e dá uma conferida na minha resenha sobre o Escuridão Total também! Valeu Abraço!

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