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23 de abril de 2014

Resenha: Navio Negreiro de César Bravo


Sinopse:
   Navio Negreiro conta a história de homens vivendo como ratos, disputando espaços e patentes dentro de um presídio de segurança máxima. Mas os homens dali, como todos os homens, não são somente os trapos que vestem. Os presos são seres humanos, outrora dignos, homens de coragem que agora pagam suas dívidas. Quantos aos carcereiros, alguns são maus de verdade. Tipos como Manfredini, que estão ali para fazer o trabalho do diabo, eles são as verdadeiras grades da prisão. E quando as agressões vêm dessas grades, as dívidas são cobradas com sangue. Um terror como você não lê todo dia.

   "Os olhos de Santos ainda rodopiavam enquanto a língua engrossada teimava em sair da boca — outra lesma, um pouco maior e mais vermelha que o cérebro lá em cima. Santos logo sufocou com ela, fazendo barulhos e engasgos ruidosos, aquilo podia chamar a atenção de alguém. Para resolver isso, Manfredini pisoteou a cabeça. Mirou seu sapato na lesma mais clara que vazava do crânio e esmigalhou-a com a sola grossa do coturno. Era como pisar em um grande chiclete no inverno — quando ficam mais duros. Coisa fascinante um cérebro, foi o que pensou Manfredini, observando como era resistente."

Opinião:
   E se Clive Barker tivesse escrito À Espera de Um Milagre? O resultado seria algo parecido com Navio Negreiro, o mais novo pesadelo escrito com sangue do mestre do horror César Bravo, autor de Calafrios da Noite, Além da Carne e Caverna de Ossos. Diferente de suas obras anteriores, Navio Negreiro mistura o gore com o sobrenatural, em uma narrativa ágil e chocante, tanto pela capacidade do autor de fazer o leitor sorrir com um mordaz humor negro nos momentos mais inesperados, como pelas cenas explícitas de violência. Mistura o sangue das vísceras com as sombras sinistras do lado escuro da sala, o arrepio gelado que cavalga pela espinha na tensão com a ânsia de vômito nas cenas em que é impossível desviar os olhos. É o horror nacional em toda sua magnificência.
    César Bravo é bastante visceral em sua escrita, seus protagonistas são bastante reais e ao mesmo tempo surreais em seus atos, nada do estereotipo do herói que salvará o dia e a todos ou o anti-herói com pose de mau, mas que no fundo é bondoso são humanos cujas almas enfrentaram a imundície do mundo e por ela foram maculadas, pessoas como eu e você cuja estrada se alterou drasticamente por uma esquina de diferença. O conto se inicia com a sutileza áspera característica do autor, em uma cela de prisão um cadáver verte lentamente o liquido de sua massa encefálica, enquanto o cérebro outrora fresco em contato com o ar se torna esponjoso. Há uma construção de um ar sombrio que se imiscui lentamente durante a obra, rasgando aos poucos a fina membrana que separa a realidade do sobrenatural.
    Navio Negreiro é conto rápido para ser lido em apenas uma noite de insônia, o fertilizante perfeito para preparar o solo da mente para uma admirável colheita de pesadelos. Mesmo um tempo após a leitura ainda é possível ouvir as vozes cantando suas misérias e os gritos dos condenados ecoando pelos corredores do presídio. Leitura obrigatória aos fãs nacionais de horror. Mas por que do título Navio Negreiro você me pergunta? Bem caro leitor apure seus ouvidos e deixe os espíritos lhe contarem os porquês...

Minha nota: ☠☠☠☠☠☠☠☠☠☠ (10/10 Caveiras) 

3 comentários :

  1. Cara, nem li o livro e já simpatizei com o Manfredini.
    Pretendo ler.

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  2. Gente que horror!!!

    Tio Cesar vai me causar mais pesadelos!
    O cara é D+ mesmo!
    Sabe como apavorar os leitores!

    Com certeza quero ler! o/

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  3. Saber escrever é o diferencial. Isso independe do estilo. Não foco o meu olhar em terror ou não/terror. Assim, César Bravo, tem em mãos, o limiar entre imaginários e concretudes. Trançados até o ápice simbiótico.
    Na minha lista.

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